domingo, 4 de maio de 2008

Um lixinho aqui, outro ali e a cidade vai ficando um lixo.
















O Bicho

Vi ontem um bicho
.
Na imundicie do pátio

Catando comida entre os detritos
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,

Não era um gato

Não era um rato

O bicho, meu Deus, era um homem.


*Manuel Bandeira(1886-1968), escrito em 27 de dezembro de 1947, incluído em Estrela da vida inteira.

Agora quando começo a escrever escuto alguém varrendo a calçada, aqui em Copacabana, escuto ou presencio alguém varrendo a rua, seja um porteiro ou um varredor da Comlurb. Por mais que estes trabalhadores, conhecidos como garis, façam a sua parte, a população que transita pelo bairro, sejam moradores ou não, muitos deles colaboram firmemente sujando as ruas. Por mais que a calçada ou a rua esteja um “brinco”, em poucos minutos, ficará suja novamente. O ato limpar e sujar são verbos ou ações que são conjugados diuturnamente. Além das ruas que a população gosta de deixar o lixo, há outros espaços que são contemplados pela população deixando todos os tipos de lixo, são: os terrenos baldios, os rios, lagos, lagoas, praças, praias e mar.

Há ainda folhas, galhos, entulhos e terra. Convivemos com muita sujeira em qualquer lugar em que se vá, são detritos espalhados por todos os cantos. Reconheço que hoje houve uma melhora na coleta do lixo, há mais gente envolvida na coleta seletiva, com a forte presença de catadores em um trabalho de reciclagem, há um grande aproveitamento do lixo com separação em orgânico e inorgânico. Sem duvida que a cidade foi transformada em uma grande lixeira, há porcalhões oriundos de diversas condições sociais. Contêineres nas praias são solenemente ignorados pelos banhistas.

Tenho visto pessoas de diversas idades jogando, espalhando o seu lixo pela rua, fingem que nem é com eles, são capazes de ignorar a lixeira e o gari, creio que muitos acham mesmo de enorme inutilidade as lixeiras, que enfeiam tanto as ruas que jogam o lixo muitas vezes do lado de fora dos cestos. Quando presencio cenas desta natureza, fico irritado, perplexo, mas fico calado, não quero gerar nenhum conflito, hoje em dia com tanta violência rondando o nosso cotidiano que é melhor preservar a sua vida, por qualquer coisa um sujeito mata o outro sem pestanejar.

Muitas vezes vi alguém jogando latinhas pela janela de algum veiculo, percebo que o sujeito quer se livrar deste incomodo e atira o lixo mirando na rua. Acho que ficam orgulhosos deste gesto. Lembro que quando viajava pelo metrô nos anos 90, o comportamento dos usuários deste tipo de transporte considerado como o mais limpo do mundo, era uma verdade, com a ampliação das estações, com o transito maior de passageiros nos vagões, a sujeira tomou maior volume, tanto que recolhem toneladas de lixo no final do mês, mesmo assim, é bem limpo.

Acredito que a diminuição do lixo jogado na rua, um espaço publico por excelência, estaria ligada a mudança de hábitos, cuja participação da sociedade, motivada por uma conscientização coletiva, seria o caminho, que pode ser alcançado através de divulgação maciça na mídia. Nos registros de minhas lembranças, recordo do personagem Sugismundo de cunho educativo que circulava pela tv na década de 70, que sustentava a idéia de “povo desenvolvido é povo limpo” produziu algum efeito, mas de curta duração, no entanto, vejo dificuldades para qualquer perspectiva de mudança, pois é um habito arraigado nas pessoas de difícil remoção.

Convém lembrar que o comércio informal com suas bancadas espalhadas, os ambulantes, geram muito lixo, poucos conseguem recolher os lixos produzidos por suas atividades, lembro que os trabalhadores informais privatizam o espaço público de modo desordenado e autoritário, dificultando e estreitando em cada vez mais o espaço destinado a pedestres.

Em minha rua durante a noite, noto a intolerância de motoristas em seus carros buzinando loucamente, irritados, gritam e xingam o pessoal que trabalha no caminhão de limpeza que para fazer a coleta domiciliar inevitavelmente impedem a passagem de outros veículos. Motoristas alucinados fazem questão de não reconhecer o trabalho dos outros, buzinam insistentemente para pedir passagem, não avaliam que ao fazer este barulho, perturbam os demais moradores em suas residências, acham que podem importunar os outros, mas que não aceitam sob hipótese alguma serem atrapalhados, ainda mais por um caminhão da limpeza urbana.

A sujeira deixada pelo cachorro, não me foge a idéia que flagro neste momento de que parte desta população que joga lixo no chão, que suja a cidade, expõe uma questão importante que é a ausência da educação, embutido muitas vezes em preconceito social, da consciência do espaço público. De nada adianta colocar avisos, isto não provoca vergonha para quem suja, pelo contrario faz com que ele reclame da atitude do outro, da sujeira da cidade, do entupimento, das ruas alagadas.

O bairro de Copacabana as ruas continuam sujas, com a prestimosa colaboração dos panfleteiros que mesmo proibidos, continuam a distribuir seus panfletos, alias no sábado vi na esquina da Rua Santa Clara, um grupo de moças e rapazes distribuindo panfletos, todos identificados com as lojas próximas; vi um senhor amassar um papel e jogar no chão ao receber de uma das moças, no entanto, para a minha admiração a moça abaixou-se e recolheu o papel. A cada dia a população que transita pelo bairro, sem esquecer os moradores de rua, produz mais lixo, que por sua vez, pode entupir bueiros, provocar enchentes. O lixo é um problema que gera agressão ambiental, se olharmos para as praias, rios e lagoas. Acho que a prefeitura através da Comlurb tem feito um bom trabalho, mas que fica tremendamente prejudicado por vários fatores que basicamente norteiam o comportamento das pessoas que ainda se mostram refratarias a colaborar na limpeza dos espaços públicos, uma delas é a preguiça de procurar uma lixeira.

Para mim está claro, além do hábito, está à noção, de que alguém vai limpar, é produzido muitas vezes no interior da casa ao deixar para os pais limparem ou a empregada. Se na escola suja, tem a faxineira que faz; se na rua suja, o lixeiro está aí para isso. Vai haver sempre alguém em condição social inferior para fazer a limpeza.

Um estudo do psicólogo social Fernando Braga da Costa, que defendeu o mestrado na USP em 2002: Gari – Um estudo de psicologia sobre invisibilidade pública, publicado em livro pela Globo com o título: Homens Invisíveis – Relatos de uma humilhação social. A experiência e os relatos de Fernando, no papel de gari, trabalhando no campus da USP, é muito interessante, tive conhecimento de parte de sua tese, há muito tempo e circulava pela internet, veio à tona, no final dos anos 90. Ao começar a escrever este post, lembrei também da poesia O Bicho publicada em dezembro de 1947, incluída na obra poética completa de Manuel Bandeira, A Estrela da Vida Inteira, editado pela Nova Fronteira.




Antonio Berni - Nasceu em Rosário, Argentina, em 1905 e faleceu em outubro de 1981

domingo, 27 de abril de 2008

O Louco da Colina - Final





Depois de muito tempo, passado anos e anos, o paciente Sapão como também ficou conhecido no hospício o Louco da Colina, ganhou contra a sua vontade através de numerosos abaixo-assinados de pacientes de todos os pavilhões pedidos à direção do hospício para que o mandasse de volta para casa.Que nunca mais para ali voltasse. Conseguiram após muita luta, pois resistia com unhas e dentes, em muito qualquer tentativa de transferência. Ninguém mais suportava a presença dele no hospício, era muito danosa ao ambiente hospitalar. A leitura de um manifesto contra a sua permanência no local, desencadeou protestos em tudo que era lugar, incendiando os ânimos. Havia cerca de 1950 internos protestando contra o Louco da Colina. Formou-se uma imensa torcida contra o Sapão. Hei Sapão, a tua hora vai chegar! Foi uma loucura geral no sanatório. Não havia mais clima para a sua permanência, devido aos mandos e desmandos, achando que tudo que estava a sua volta, era dele. Ninguém poderia contrariar que partia para cima, passar perto da árvore que ele ficava agachado e alisando por horas, era um problema cada vez maior. Sua primeira reação era lançar um olhar de fúria e com a boca espumando agredia com tapas e socos os internos. Ficava muito irado. Resistia a qualquer ordem superior, ignorava solenemente.

No final da tarde Dr. Simão pressionado pelos internos, foi procurar a ficha do paciente e não encontrou no arquivo, havia sumido. Procuraram por todos os lugares, sobrou apenas um papel encontrado na lixeira da enfermaria do segundo andar, que lhe possibilitou garantir a alta do paciente. O interno do Pavilhão Nove ao ganhar liberdade, foi um alivio para todos no hospício Uma comissão de internos de imediato preparou uma noitada de samba. Tilde Peito de Melão pulou de alegria e a cerca, com mais oito internas. Vovó Sinhá uma das mais antigas da Ala das Mulheres, não estava disposta a ir, não gostava de samba, curtia muito funk. Todos a partir daquele dia viveram uma vida normal no hospício.

sábado, 26 de abril de 2008

Silêncio, os cachorros estão latindo.











Não estamos no mês de agosto, mas com toda a certeza, o cachorrinho da vizinha é louco, late o tempo todo e a qualquer hora do dia. Como tenho escrito ultimamente durante a madrugada para fugir um pouco do barulho de Copacabana, sou testemunha nestas horas da presença dos neuróticos cachorros da vizinhança, que latem sem parar. Há latidos e uivos diversos produzidos por diferentes raças de cachorros, mas com certeza é um animal de pequeno porte. Não tenho conseguido identificar pelos latidos, qual seria a raça do cachorro que acabam com um momento silencioso da noite. Claro que os animais não são os únicos que fazem barulho, há outros sons urbanos, que são irritantes. Aliás, os latidos estão incorporados ao cotidiano da vida urbana, como é o caso do bairro onde moro.

Fomos donos (eu, a companheira e o filho) de um cachorro vira-latas que viveu por dezessete anos, durante toda a sua existência procuramos minimizar bastante os seus latidos, claro que alguns fogem do controle, é instinto do animal se comunicar de algum jeito, daí os latidos que podem significar várias coisas. Cabe ao dono educar o animal. É possível com o passar dos anos o meu grau de neurose tenha aumentado em muito, entendo, que não seria capaz de conviver com um animal latindo o tempo todo ao meu lado, sem passar por uma reação, afinal não estou isolado, vivo em prédio e em uma área urbana.

Gosto de animais, depois que Kim morreu; decidimos, eu e a companheira, não teríamos mais nenhum cachorro, digo cachorro, por ser esta a nossa preferência, em vez de gatos, ou passarinhos.

Fico espantado e muito irritado com a capacidade das pessoas de não se tocarem que o animal que tem sobre os seus cuidados perturba, senão a vizinhança, pelo menos um dos seus vizinhos. Muitas pessoas não entendem que o direito delas termina onde começa o do outro. Acho que estão cegamente convencidos de que os latidos do totó, senão incomoda a elas, aos outros muito menos. Admito que as vizinhas dentro de um modelo individualista de pensar as relações sociais poderiam me recomendar que os incomodados que se mudem.

Entendo que a população canina de Copacabana é numerosa, outro dia, de bobeira na janela, observei que é constante o movimento de cachorros com os seus donos pelas calçadas de ambos os lados. Quando caminho pelo calçadão observo, a presença de caninos. Não há um grande intervalo sem passar algum cachorro, sem ouvir latidos e brigas entre eles. A orla de Copacabana é uma festa para os bichos e seus donos. Em períodos momesco há o surgimento do Blocão, um bloco de carnaval animado para os donos e seus respectivos animais. Há sempre atividades no bairro envolvendo a turma de quatro patas.

Quando tivemos o Kim sempre quando o levávamos para passear, pegávamos o jornal para ser utilizado no momento necessário. Em Botafogo foi o bairro que moramos quando Kim era um filhote, o uso do jornal pelas ruas do bairro gerava elogios dos passantes. Ouvi algumas vezes elogios de pessoas de dentro dos carros. Isto era no final dos anos 70 e começo dos 80. Respeitamos sempre o espaço alheio, principalmente a calçada, pois, conduzíamos um animal; depois vieram campanhas educativas, que contaminou um pouco os donos de animais, passaram a usar sacos e jornais. Vejo que há muitas pessoas que deixam os seus animais fazerem suas necessidades pelas calçadas, nem ligam para o próximo, acham que sempre terá alguém para limpar o que sujou e que a condição social de quem limpará é inferior à deles. Já vi olhares de censura para este tipo de pessoa que estão acima de qualquer mortal, mas que continuam desrespeitando o próximo, não se tocam, são refratários. Nem falo dos que andam sem coleiras e guias, como o caso de pit-bull, rottweiler e fila. Os jovens senhores donos destes cachorros ignoram qualquer regra, qualquer lei, alguns são tão ferozes quanto os seus animais. Sou um dos que desde pequeno não tinha medo de cachorro, mas de uns tempos para cá, fico apreensivo em esbarrar com estes agressivos animais, o noticiário a respeito reforça em mim, uma preocupação que, aliás, ninguém deve perder de vista.

Interrompi a publicação da finalização de um dos meus contos para abordar um dos assuntos que chama a minha atenção enquanto morador de um bairro com grande contingente de moradores produzindo os mais variados ruídos. Fica difícil proclamar qualquer garantia de sossego, fica inviável, usufruir momentos de silêncio.





Domingos Alvarez - Pintor Galego

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Louco da Colina - Parte 4









- Você é doido demais! Louco varrido. Preciso ir, estão me esperando lá fora. Vai rolar muita festa.

- Não vá embora, dou tudo isto aqui para você. Prometo fincar aquele tronco para sempre. Olha como está bonito. “Ai que vontade de te ver, te abraçar e te beijar, te amassar e te beijar.” Você é a minha razão de viver.

- Este lugar não é a sua propriedade, você tem muitas outras propriedades, esta não é sua. Você veio a fim de conversar com o diretor e passar um período neste aprazível lugar. Me solta, me deixa. Estou livre. Encerrei, não dá mais. Minha vida agora é em outro planeta e você sabe muito bem onde que é, somos de lá.

- Tá doido diabo, fala baixo, quer estragar tudo. Você está redondamente enganado, isto aqui é meu. É meu! É meu! É meu! Quem manda aqui sou eu e ninguém mais. Esbravejava cada vez mais alto. Parou de gritar por uns instantes para cheirar o sovaco. Cada louco com a sua mania e a minha é gostar de você, de cheirar e lamber sovaco, chutar cachorro morto e fazer previsões furadas.

- Professor escuta. Chega mais perto, daqui dá para ver e escutar. É o Louco da Colina, está perto daquele homem nú, acocorado, que lê a bíblia, ao lado de Tião Medonho. - Professor, ainda não viu? Olhando mais a direita, vê a Matilde Peito de Melão namorando embaixo da escada, passa daquele maluco metido a besta falando para as paredes, um que está em pé no pátio com as mãos na cintura, passou a imitar a Carmem Miranda, não é o que está atrás dele, este o Dedé Rola Pequena que está sempre com uma gravata de garçom no pescoço, com uma cigarrilha apagada no canto da boca, é o mesmo que namorava a pouco, embaixo da escada. Assim que ele vê a Tilde, vão para embaixo da escada. Fazem amor até de madrugada, depois cada vai para um canto dormir.

- Já vi, é um homem fantasiado com uma roupa verde, muito gordo, com uma cartola na cabeça.

- Sim, é este mesmo.

- Quando passei por ele, xingava muito, bufava, soltando fumaça pelas ventas, está muito agitado, grita e baba muito, alguém o contrariou. Vi que ele conversava com um homem baixinho e careca, trajando camisa preta e vermelha. Só vi o cara dando uma corrida parecia com um foguete à impressão é de que estava atrasado, mas saiu tão rápido, achei que ia partir para outro planeta.

Dois dias depois. Era noite, alguns dormiam ao relento, outros em camas beliches. Pinduca era um dos loucos mais respeitados no manicômio, fora recolhido na rua, andava perambulando. Foi músico, perdeu família, emprego, viciado em drogas. Andava todo rasgado, como se fosse um hippie. Depois que veio para cá, passa o dia tocando violão, fica tomando sol, a tarde gostar de pregar no meio da praça sobre a reforma psiquiátrica e a noite fica em cima do telhado, uivando para a lua.

Era bem tarde da noite, com poucas luzes acesas, dali percebeu uma movimentação estranha, era um homem vestido de verde fazendo o maior qüiproquó no salão, dava tapas e cascudos, mordia a orelha de quem o perturbasse. Expulsou todos que estavam ali. Eu sou o dono do mundo, deste lugar, tudo que está aqui é meu, empurrou violentamente contra a parede e desfechando seguidos pontapés nas canelas do Dmitrievitch, mais conhecido como Dmitri ou Gringo da ala E, tudo porque havia acabado de contrariar o homem vestido de sapo. Dmitri ficava sempre vestido com roupa de guerrilheiro, embaixo do braço, um album de fotografias dos amigos desaparecidos,foi um militante político muito combativo do Movimento Revolucionário, muito querido no hospício, era um revolucionário com a mania de ser Che Guevara. Lutava pela libertação dos povos latinos.

Pela manhã, Doutor Simão mal chegou à Casa Verde, foi interrompido no corredor para uma conversa com Dona Neide, narrando o que aconteceu na noite anterior com o paciente da ala E do Pavilhão Nove, o tumulto que fez, quis bater em todo mundo, gritava que isto aqui é dele e de mais ninguém. É um louco furioso, disse examinando o prontuário com um ar de preocupação, precisa de um neuroléptico sedativo. Doutor Simão o remédio está em falta, chega no ultimo dia útil do mês que vem. Vamos colocar na cela de castigo. – Dona Neide, por favor, chame o enfermeiro Leandrão. - Não posso doutor, faltou ao trabalho. Deixou recado dizendo que ganha muito pouco e vai para outro hospital particular ganhar muito mais.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Louco do Colina - Parte Três








- Que foi maluco?
- Sou louco por você! Sou louco por você. O que você faz aqui? Até que enfim encontrei com você. Minha vontade, meu desejo é de te beijar agora, puxar estes poucos cabelos, te fazer cafuné.
- Qual é parceiro, está me estranhando? Ainda mais vestido deste jeito.
- Fiquei muito feliz de encontrar com você.
- Sumiu por quê? Por que sumiu? Onde você estava que não respondia.Mandei recados, telefonei, mandei e-mails, fui à praia e nada de achar você.
- Você é aquele que estou pensando? Perguntou muito desconfiado
- Pois é, começaram a espalhar que fiquei com um parafuso a menos por afirmar que havia uma torcida que não era deste planeta. Na verdade não estou internado, as mil loucuras que fiz, não são suficientes para ficar internado. Se você é você mesmo, tô na bronca contigo. Vacilou e pronto!Deixou furo comigo. Perdeu! Já era. Vá reclamar com o Bispo Sardinha.
- O que você faz aqui neste lugar, onde só da louco.
- Vim buscar um amigo meu louco por mulher, cismou que quer ir ao show da Garota Melancia. Vamos depois dar um giro pelos bares da vida.
- Vai ser uma loucura, a mulher bate um bolão. Aquilo é demais.
- Não quero saber de show de melancia, de morango, de jaca, de qualquer outra fruta. Você ainda não me falou o motivo de seu desaparecimento. O que fez você mudar de idéia?
- Paizinho, deixa antes dar um beliscão neste nariz de Pinóquio Para você entender, você teria de ser de outro planeta.
- Mas já disse a você que sou de outro planeta, esqueceu? Que sou lunático, fanático por você. Lembra de uma vez que você jurou que era americano, nem acreditei nesta lorota, sei que você morava neste país tropical e bonito por natureza, na época, se não falha a memória tinha uma nega chamada Tereza, andava de fusca do amigo Jorge, pra cima e pra baixo. Foi uma tarde maravilhosa em que recordamos nossas promessas. Só eu e você. Você e eu, sentados à beira do caminho tomando guaraná. Bons tempos.
- Agora você me botou numa furada. Ao dizer que vai, mas não vai. Tá vendo aquela árvore ali atrás, perto do banco. Você está ali. Repito. Você está ali. Seu espírito, seu corpo. Você será eterno.
- Eu não estou lá. Nem vem que não tem. Quer me deixar louco. Estou aqui, bem perto de você, com esta camisa preta e vermelha. Interrompeu a conversa para beijar a camisa. Vamos sair da passagem, estamos atrapalhando as pessoas que querem ir ao banheiro.
- Que se dane os outros.
- Pára! Quero que me olhe, olho no olho, sem pestanejar. Você sabe e o mundo também que eu sou de veneta. Faço sempre o que der na telha. Planejava o meu futuro e sem você, o meu presente, só fica no passado. Olha mais uma vez para aquela árvore, como você está bonito. Agora também com esta camisa, fica um encanto.
- Você é louco de pedra mesmo, para dizer que eu estou lá. Quando cheguei vi um enorme sapo ajoelhado beijando uma árvore, era você? Na verdade aquilo é um pé de quê?
- De Jequitibá. Ali ninguém mexe se mexer vai se ver comigo. Não há louco que se atreva. Tudo que você representa está naquela árvore, quem seria o louco de derrubar uma árvore. Tranquei a árvore, passei uma corrente com um cadeado a sete chaves, como sou louco e não bobo, engoli.
“Ah! Eu to maluco! Ah! Eu to maluco!” Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
- Cara! Você é muito louco mesmo. Piradão! A árvore pertence à Colônia, foi plantada segundo uma amiga professora de História desde 1898, passou por alguns lugares e depois foi lá para aquele bairro da zona norte.
- Faço tudo por você! Imito passarinho se quiser. Dou cascudos e chutes no traseiro do primeiro animal que eu encontrar pela frente. Converso com cachorro pit bull, mordo a orelha dele e se duvidar faço dele um cachorro quente. Continuo fantasiado de sapo para brincar com as criancinhas. Chamo urubu de meu louro, mordo minha orelha e o dedão do pé; tiro bala da boca de criancinhas,me transformo em profeta, começo a dizer coisas até que Deus duvida.
- Mas aí parceiro, que roupa mais estranha.
- Pedi emprestado ao Beto Chulipa a fantasia para não ser confundido com um sósia que enche o meu saco toda vez.que me encontra. Como gostei muito daqui, quero comprar estas terras, quero morar aqui com a família.Vou tirar muitas fotos daquela árvore. Olha bem a copa.
- Mas está a venda? Como vai comprar?
- Nem sei, nem quero saber. Quero comprar as terras deste antigo engenho, fazer vários campos, cada um mais moderno que o outro. Fiz contato com varias empresas estrangeiras, todas se mostraram interessadas.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Louco da Colina - Parte Dois









É um homem vestido de sapo, tentou falar o que estava em um caixote segurando uma boneca de pano. Cala boca maluco! È o Louco da Colina. Ouvi por muito tempo falar de sua fama de mau.Tão mal que nem pica-pau. Meu tio que foi garçom no boteco de seu Juaquim contava as maiores loucuras dele, cada uma de arrepiar, todas sinistras. Vamos nos esconder. É perigoso ficar por perto. Já tremendo da cabeça aos pés, foi à sugestão do mais medroso da turma que andava pra cima e pra baixo vestido de Gato de Botas. Calma pessoal, gritava enlouquecido o interno do Pavilhão 9, que ao saltar de cipó por pouco não pisava nos calos de Zé do Boi, que estava ali, por ter acabado com o seu serviço na cozinha. Cuidava da gororoba da turma. O apelido ganhou por conta das histórias incríveis que contava de seu tempo de vaqueiro, em que pegava touro à unha. Todos pediam bis, para contar mais histórias mesmo que ninguém acreditasse, todos riam e aplaudiam.

O estranho visitante, muito confundido pela maioria dos internos com um sapo, continuava com a caminhada, até chegada à sala do Doutor Simão, restavam uns cem metros. Como perdeu a calma por ainda não ter chegado ao local, passou a caminhar de modo apressado e bufando. Um engraçadinho escondido passou a orquestrar as primeiras vaias e xingamentos. Parou e começou a esbravejar contra o desconhecido, soltou cobras e lagartos, para seguir em frente, aliviado. Não sou de engolir sapos, nem gosto de comer pererecas.

Um enfermeiro barbudo, com mais cinco, atrás de uma porta aguardavam o novo paciente, para vestir uma camisa-de-força, tamanho GG tudo feito para que se sentisse confortável dentro da nova vestimenta. Quando viu passar o estranho visitante, reconheceu de imediato, foi o mesmo que ao ser chamado com urgência resistiu bastante ao internamento. Nem com o Sossega Leão, o deixou mais calmo. Vai ser um caos maior neste hospício quando num ataque de loucura, gritar que é Deus. Como é cobra criada, comentou baixinho para não ser ouvido.

Antes de chegar ao gabinete e ao dobrar a esquina viu uma árvore e saiu em desembalada carreira em sua direção, de um bote só, tratou de ficar agarrado ao tronco, que não havia jeito de soltar. Puxaram de um lado pro outro, e nada. Nem jogando água fria resolve. Solta a árvore! Solta! Larga! Do jeito que está, só dinamitando Psiu! Rápido! Fala com o Poeta, o assistente do Dr. Simão para pegar com urgência, lá na Casa Verde, no quartinho dos fundos, na prateleira de cima, um pacote dentro de uma caixa preta. O Doutor Simão vai aguardar mais alguns minutos para conversar, disse a secretária Neide.

Não houve jeito. Ficou tão ligado ao tronco que passou horas alisando de cima para baixo, depois de muito babado passou a beijar de estalar o tronco. Seu olhar hipnotizado ao ver o seu objeto de adoração, foi testemunhado pelos internos e pelos funcionários da Colônia. Coitado! Comentou o funcionário Seixas que soube uma vez por seu amigo, que ele se esforçava para ser um sujeito normal e fazer tudo igual.

Ajoelhado diante da árvore fez juras de amizade e amor eterno. O que tanto conversava ao pé da árvore, era o que queria saber um paciente que estava prestes a receber alta, pois ficaria em casa para tratamento. Precisa muita cara de pau, para se submeter a isto. É ele mesmo? Não conseguiram mesmo controlar a sua maluquez. Um senhor que cansado de tanta confusão, antes de voltar para a cama, comentou com o vizinho, nunca com a idade que tenho, vi com estes olhos que a terra há de comer, um homem ser tão aficionado por um tronco de árvore. É uma vergonha, vi lambendo, cheirando e alisando freneticamente o tronco.

Com o tempo ainda conseguiu da direção permissão para colocar uma grade de proteção, para que ninguém se aproximasse. Contratou um monte de segurança. Seu comportamento, muitos afirmaram que mudou para pior depois que viu o tronco da árvore.

Compadre, falou para o vizinho, que grande escândalo aprontou o homem fantasiado de sapo fez ao encontrar com o gordinho, baixinho e careca, aquele interno da ala 11 que chegou a poucos minutos e bate um bolão em nossas peladas de sábado. Ele não é interno compadre, ele é visitante, como joga muita bola, Tobias, este sim, que é interno da ala 11. Como não consegue ficar longe da bola, convidamos para jogar em nosso time. Ganhamos todas. Com ele, não há quem possa, mesmo com os fios brancos de seu cabelo.

Quem me bateu foi um cara do pavilhão 9, da galeria dos alucinados, um jovem de nome Alex Lunático ou Girafão como muitos gostam de chamar. Sabe quem é? Sei sim, é aquele que vive tropeçando nas próprias pernas ao correr na hora da ginástica. Pois é, disse que estava pendurado na grade, presenciou uma cena inusitada. O homem vestido de sapo ficou enlouquecido quando foi ao banheiro, esbarrou na porta com uma pessoa que parecia ser seu conhecido, trajando uma camisa com as cores em preto e vermelho. Quando encontrei com Girafão no corredor ainda ria muito daquele encontro. Não pude evitar ri também que nem louco, aliás, louco já sou.

Como fazia naquele tempo toda espécie de loucura lá na rua, a minha familia, não aguentando mais, resolveu me deixar aqui, acabaram que se esqueceram de mim. Ninguém me visitava, sai uma vez no Natal, fui encontrar com uma filha. Não tive coragem de falar com ela, nem cumprimentar, coisa que mais queria. Fiquei contente compadre Virgulino, só em ver os meus netos, eram dois meninos. Cada um mais bonito do que o outro. Umas lágrimas escorreram de meus olhos, não tinha lenço, acabei enxugando na camisa. Fiquei parado do outro lado da calçada, peguei um pedaço de papel, era um bilhete, que guardo sempre comigo. Olha como está rasgado e amarelado, dá para ler o nome dos netos. Vê se consegue? Consigo sim, compadre. Diz aqui no bilhete que são dois meninos levados da breca. Escuta compadre o escândalo que o homem vestido de verde, como se fosse um sapo, faz.

Filho, você aqui! Procurei você por todos os lugares. Caiu em seguida em um pranto incontrolável, balbuciava: Seu amigo da onça, quer dizer amigo, meu irmão, camarada, fiz tudo para você, ainda faço tudo por você, que ingratidão comigo, nunca, nunquinha, pensaria que fizesse isto com o seu amigo, sou o seu verdadeiro pai, um pai patrão, é verdade, mas acima de tudo um bom pai. Foi uma crocodilagem sem tamanho. Interrompia o diálogo para chorar pelo leite derramado. A que ponto cheguei não posso aceitar que tudo tenha sido feito em vão. Tudo que andam falando é uma mentira deslavada. Uma cascata.Você não disse o que andam falando por aí. Mesmo que repitam por diversas vezes, nunca será verdade.
- Tá louco quem é você?
Não conseguiu responder, soluçava muito.


segunda-feira, 21 de abril de 2008

O Louco da Colina - Primeira Parte









A Colônia recebeu com alegria incontrolável a notícia da chegada de um novo hóspede. Mais um! Mais um! Era o coro ouvido à distância. Foi uma loucura geral. Foi uma correria. Muitos chegaram a bater cabeça com cabeça. Uma pequena briga agitou o ambiente, mas foi logo apartada, era uma disputa pelo melhor lugar, nada que não pudesse ser resolvido com uma conversinha ao pé do ouvido com os donos do pedaço.Todos queriam ver aquele louco com fama de louco.

Eram dez horas da manhã, quando chegou. Assim que abriu a porta do carro, foi logo chutando um abelhudo que tirava fotos para uma revista. Deu um drible em um repórter e uma cusparada.Um velho papagaio de pirata passou a sua frente para pedir vários autógrafos, não deu nenhum, recebeu apenas sopapos e cascudos. Muitos que o conheciam sabiam que estava sempre dominado por violenta emoção, mas fingiam que nada acontecia, e quem era bobo de contrariar, virava logo um inimigo.

As noticias que circulavam antes deste providencial internamento, era que foi visto, berrando bem alto anunciando: Sou o dono do mundo e da bola, tudo isto aqui, é meu e de mais ninguém. Passou em seguida a insultar a todos, cuspir e dar sonoras gargalhadas pendurado no lustre do salão principal. Uma minoria que não era levada a sério, mesmo assim, afirmava que flagraram dando voltas e mais voltas em torno de si, na tentativa de morder uma das orelhas. O boato tomava conta do ambiente. Os pequenos grupos que ficavam do lado de fora na calçada conversando perto de um poste perceberam que um sujeito após vários murros começou a subir pelas paredes de tão enfurecido que estava. Não deu outra, era ele mesmo. Coisa de maluco era o comentário geral.

Tudo começou quando um operário numa bela manhã de agosto encontrou enterrado em um buraco com certa profundidade, coberto por muita grama; lá se vai alguns anos, um enorme objeto, na verdade, era uma caixa feita de madeira de dar em doido que se assemelhava em muito vagamente a uma urna. A noticia da descoberta, mal foi noticiada, para em seguida ser logo desmentida. Nada foi encontrado, assim foi declarado em nota oficial, era um simples osso enterrado por um vira-lata que morava nas redondezas e que foi confundido pelo ignorante trabalhador, com sendo uma urna.

O que se conta é que foi uma piração total, assim que recebeu a noticia do achado, com a boca espumando, olhos arregalados foi logo dizendo que era dele. Avançou sobre o objeto, arrancando dos braços do assustado homem. Tratou logo de dar um sumiço na caixa. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. De lá pra cá, passava o dia, vendo fantasmas, ouvindo vozes do além e imagens masculinas. Eis que de repente por uma delas, ficou muito fissurado, a ponto de exercer uma idolatria fora do comum. Por aquela, vamos dizer paixão, faria qualquer loucura.

Na hora de ir para casa escutou ao passar pela portaria, um senhor que trabalhava como porteiro comentar sobre a descoberta do colega, levou logo um pontapé no traseiro; a moça do cafezinho, que conversava com o seu Manuel, o porteiro, teve a bandeja derrubada por tapas em suas mãos, apenas por comentar entre eles que o objeto achado era muito bonito e deveria valer muito. Não suportou ouvir os comentários, mandou os dois para o olho da rua. Se tivessem alguma coisa a receber, coisa que duvidava que fossem reclamar pelos direitos na justiça.

Começava assim mais um dia de fúria, que a cada dia era mais freqüente. Ficava fora de si. Até que, não se sabe bem o motivo, apareceu de supetão, naquela velha instituição psiquiátrica da zona oeste.

A desculpa esfarrapada dada aos filhos, é que iria fazer uma visita ao museu;aos amigos que ali estavam internados contou uma lorota ao propor a compra daquelas terras para fazer campos e mais campos para jogar pelada com a família.Comentário geral em uma rodinha, com certeza, só pode ser louco. A família muito preocupada discutia entre si, uns achavam que eram os sonhos e pesadelos que tinha desde a infância. Era na verdade um menino rico e mimado, outros achavam que eram delírios. Era um comportamento estranho e preocupante. Por mais que estivessem feito previsões, deu no que deu. Muitas eram as manifestações egocêntricas, assim, encasquetou que tudo que via pela frente, era dele e ninguém tascava. Tudo e todos giravam em torno dele.

A direção o aguardava. Depois de dar os primeiros passos, bastou um interno fazer caretas para logo partir para cima do homem, um senhor com anos de internamento. Daqui, pendurado desta grade me parece que é um enorme sapo e com nariz de Pinóquio que está se aproximando, berrou apavorado o sujeito que levava a fama de biruta que trabalhava na lavanderia. Também vejo um sapo, gritou o que estava em cima da árvore, chupando manga. Vejo um grande sapo, disse o anão encostado ao muro. Um sapo gordo usando cartola e carregando umas tralhas debaixo do braço. Se ficar internado aqui, será um louco de carteirinha. Vai ser doido de pedra. Um louco de curiosidade deu um salto e acabou vendo do que se tratava, mas saiu em louca disparada, rindo que nem louco, sumiu, após dar uma cambalhota, não espalhando o que tinha visto.

Não acredito no que estou vendo! Quando me contaram não acreditei. Belisca, belisca, me belisca que vou dar um troço, disse a secretária Neide, este hospício vai virar um inferno. É o mais louco dos loucos. Pelo amor de Deus, vamos mandar ele de volta. Por qualquer coisa, fica furioso. Tudo tem de ser respondido do jeito que quer ouvir, caso contrário sai distribuindo catiripapos nas pessoas, sobra até para quem estiver passando na hora. Um interno de bigodinho bem aparado, engravatado, segurando “Mein Kampf”, escondido atrás da porta, ficou louco de alegria em saber de quem se tratava. Achou que demorou muito em aparecer. Estava faltando ele, o nosso líder, nosso messias aqui neste hospício. Hei, hei, será o nosso Rei. Heil! Heil! ! Sieg, Heil! Heil! Heil Führer! Führer mein Führer! Anauê! Entoava as velhas saudações dos tempos em que era chamado de galinha verde. Será o nosso profeta. Fez as saudações costumeiras ao homem que passava, que respondeu de imediato esticando os braços e com um largo sorriso de aprovação. Passo depois para lhe dar um beijo, gritou para o homem do bigodinho e seguiu em frente em direção do gabinete do diretor.(Continua)