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domingo, 27 de abril de 2008

O Louco da Colina - Final





Depois de muito tempo, passado anos e anos, o paciente Sapão como também ficou conhecido no hospício o Louco da Colina, ganhou contra a sua vontade através de numerosos abaixo-assinados de pacientes de todos os pavilhões pedidos à direção do hospício para que o mandasse de volta para casa.Que nunca mais para ali voltasse. Conseguiram após muita luta, pois resistia com unhas e dentes, em muito qualquer tentativa de transferência. Ninguém mais suportava a presença dele no hospício, era muito danosa ao ambiente hospitalar. A leitura de um manifesto contra a sua permanência no local, desencadeou protestos em tudo que era lugar, incendiando os ânimos. Havia cerca de 1950 internos protestando contra o Louco da Colina. Formou-se uma imensa torcida contra o Sapão. Hei Sapão, a tua hora vai chegar! Foi uma loucura geral no sanatório. Não havia mais clima para a sua permanência, devido aos mandos e desmandos, achando que tudo que estava a sua volta, era dele. Ninguém poderia contrariar que partia para cima, passar perto da árvore que ele ficava agachado e alisando por horas, era um problema cada vez maior. Sua primeira reação era lançar um olhar de fúria e com a boca espumando agredia com tapas e socos os internos. Ficava muito irado. Resistia a qualquer ordem superior, ignorava solenemente.

No final da tarde Dr. Simão pressionado pelos internos, foi procurar a ficha do paciente e não encontrou no arquivo, havia sumido. Procuraram por todos os lugares, sobrou apenas um papel encontrado na lixeira da enfermaria do segundo andar, que lhe possibilitou garantir a alta do paciente. O interno do Pavilhão Nove ao ganhar liberdade, foi um alivio para todos no hospício Uma comissão de internos de imediato preparou uma noitada de samba. Tilde Peito de Melão pulou de alegria e a cerca, com mais oito internas. Vovó Sinhá uma das mais antigas da Ala das Mulheres, não estava disposta a ir, não gostava de samba, curtia muito funk. Todos a partir daquele dia viveram uma vida normal no hospício.

sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Louco da Colina - Parte 4









- Você é doido demais! Louco varrido. Preciso ir, estão me esperando lá fora. Vai rolar muita festa.

- Não vá embora, dou tudo isto aqui para você. Prometo fincar aquele tronco para sempre. Olha como está bonito. “Ai que vontade de te ver, te abraçar e te beijar, te amassar e te beijar.” Você é a minha razão de viver.

- Este lugar não é a sua propriedade, você tem muitas outras propriedades, esta não é sua. Você veio a fim de conversar com o diretor e passar um período neste aprazível lugar. Me solta, me deixa. Estou livre. Encerrei, não dá mais. Minha vida agora é em outro planeta e você sabe muito bem onde que é, somos de lá.

- Tá doido diabo, fala baixo, quer estragar tudo. Você está redondamente enganado, isto aqui é meu. É meu! É meu! É meu! Quem manda aqui sou eu e ninguém mais. Esbravejava cada vez mais alto. Parou de gritar por uns instantes para cheirar o sovaco. Cada louco com a sua mania e a minha é gostar de você, de cheirar e lamber sovaco, chutar cachorro morto e fazer previsões furadas.

- Professor escuta. Chega mais perto, daqui dá para ver e escutar. É o Louco da Colina, está perto daquele homem nú, acocorado, que lê a bíblia, ao lado de Tião Medonho. - Professor, ainda não viu? Olhando mais a direita, vê a Matilde Peito de Melão namorando embaixo da escada, passa daquele maluco metido a besta falando para as paredes, um que está em pé no pátio com as mãos na cintura, passou a imitar a Carmem Miranda, não é o que está atrás dele, este o Dedé Rola Pequena que está sempre com uma gravata de garçom no pescoço, com uma cigarrilha apagada no canto da boca, é o mesmo que namorava a pouco, embaixo da escada. Assim que ele vê a Tilde, vão para embaixo da escada. Fazem amor até de madrugada, depois cada vai para um canto dormir.

- Já vi, é um homem fantasiado com uma roupa verde, muito gordo, com uma cartola na cabeça.

- Sim, é este mesmo.

- Quando passei por ele, xingava muito, bufava, soltando fumaça pelas ventas, está muito agitado, grita e baba muito, alguém o contrariou. Vi que ele conversava com um homem baixinho e careca, trajando camisa preta e vermelha. Só vi o cara dando uma corrida parecia com um foguete à impressão é de que estava atrasado, mas saiu tão rápido, achei que ia partir para outro planeta.

Dois dias depois. Era noite, alguns dormiam ao relento, outros em camas beliches. Pinduca era um dos loucos mais respeitados no manicômio, fora recolhido na rua, andava perambulando. Foi músico, perdeu família, emprego, viciado em drogas. Andava todo rasgado, como se fosse um hippie. Depois que veio para cá, passa o dia tocando violão, fica tomando sol, a tarde gostar de pregar no meio da praça sobre a reforma psiquiátrica e a noite fica em cima do telhado, uivando para a lua.

Era bem tarde da noite, com poucas luzes acesas, dali percebeu uma movimentação estranha, era um homem vestido de verde fazendo o maior qüiproquó no salão, dava tapas e cascudos, mordia a orelha de quem o perturbasse. Expulsou todos que estavam ali. Eu sou o dono do mundo, deste lugar, tudo que está aqui é meu, empurrou violentamente contra a parede e desfechando seguidos pontapés nas canelas do Dmitrievitch, mais conhecido como Dmitri ou Gringo da ala E, tudo porque havia acabado de contrariar o homem vestido de sapo. Dmitri ficava sempre vestido com roupa de guerrilheiro, embaixo do braço, um album de fotografias dos amigos desaparecidos,foi um militante político muito combativo do Movimento Revolucionário, muito querido no hospício, era um revolucionário com a mania de ser Che Guevara. Lutava pela libertação dos povos latinos.

Pela manhã, Doutor Simão mal chegou à Casa Verde, foi interrompido no corredor para uma conversa com Dona Neide, narrando o que aconteceu na noite anterior com o paciente da ala E do Pavilhão Nove, o tumulto que fez, quis bater em todo mundo, gritava que isto aqui é dele e de mais ninguém. É um louco furioso, disse examinando o prontuário com um ar de preocupação, precisa de um neuroléptico sedativo. Doutor Simão o remédio está em falta, chega no ultimo dia útil do mês que vem. Vamos colocar na cela de castigo. – Dona Neide, por favor, chame o enfermeiro Leandrão. - Não posso doutor, faltou ao trabalho. Deixou recado dizendo que ganha muito pouco e vai para outro hospital particular ganhar muito mais.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

O Louco do Colina - Parte Três








- Que foi maluco?
- Sou louco por você! Sou louco por você. O que você faz aqui? Até que enfim encontrei com você. Minha vontade, meu desejo é de te beijar agora, puxar estes poucos cabelos, te fazer cafuné.
- Qual é parceiro, está me estranhando? Ainda mais vestido deste jeito.
- Fiquei muito feliz de encontrar com você.
- Sumiu por quê? Por que sumiu? Onde você estava que não respondia.Mandei recados, telefonei, mandei e-mails, fui à praia e nada de achar você.
- Você é aquele que estou pensando? Perguntou muito desconfiado
- Pois é, começaram a espalhar que fiquei com um parafuso a menos por afirmar que havia uma torcida que não era deste planeta. Na verdade não estou internado, as mil loucuras que fiz, não são suficientes para ficar internado. Se você é você mesmo, tô na bronca contigo. Vacilou e pronto!Deixou furo comigo. Perdeu! Já era. Vá reclamar com o Bispo Sardinha.
- O que você faz aqui neste lugar, onde só da louco.
- Vim buscar um amigo meu louco por mulher, cismou que quer ir ao show da Garota Melancia. Vamos depois dar um giro pelos bares da vida.
- Vai ser uma loucura, a mulher bate um bolão. Aquilo é demais.
- Não quero saber de show de melancia, de morango, de jaca, de qualquer outra fruta. Você ainda não me falou o motivo de seu desaparecimento. O que fez você mudar de idéia?
- Paizinho, deixa antes dar um beliscão neste nariz de Pinóquio Para você entender, você teria de ser de outro planeta.
- Mas já disse a você que sou de outro planeta, esqueceu? Que sou lunático, fanático por você. Lembra de uma vez que você jurou que era americano, nem acreditei nesta lorota, sei que você morava neste país tropical e bonito por natureza, na época, se não falha a memória tinha uma nega chamada Tereza, andava de fusca do amigo Jorge, pra cima e pra baixo. Foi uma tarde maravilhosa em que recordamos nossas promessas. Só eu e você. Você e eu, sentados à beira do caminho tomando guaraná. Bons tempos.
- Agora você me botou numa furada. Ao dizer que vai, mas não vai. Tá vendo aquela árvore ali atrás, perto do banco. Você está ali. Repito. Você está ali. Seu espírito, seu corpo. Você será eterno.
- Eu não estou lá. Nem vem que não tem. Quer me deixar louco. Estou aqui, bem perto de você, com esta camisa preta e vermelha. Interrompeu a conversa para beijar a camisa. Vamos sair da passagem, estamos atrapalhando as pessoas que querem ir ao banheiro.
- Que se dane os outros.
- Pára! Quero que me olhe, olho no olho, sem pestanejar. Você sabe e o mundo também que eu sou de veneta. Faço sempre o que der na telha. Planejava o meu futuro e sem você, o meu presente, só fica no passado. Olha mais uma vez para aquela árvore, como você está bonito. Agora também com esta camisa, fica um encanto.
- Você é louco de pedra mesmo, para dizer que eu estou lá. Quando cheguei vi um enorme sapo ajoelhado beijando uma árvore, era você? Na verdade aquilo é um pé de quê?
- De Jequitibá. Ali ninguém mexe se mexer vai se ver comigo. Não há louco que se atreva. Tudo que você representa está naquela árvore, quem seria o louco de derrubar uma árvore. Tranquei a árvore, passei uma corrente com um cadeado a sete chaves, como sou louco e não bobo, engoli.
“Ah! Eu to maluco! Ah! Eu to maluco!” Daqui não saio, daqui ninguém me tira.
- Cara! Você é muito louco mesmo. Piradão! A árvore pertence à Colônia, foi plantada segundo uma amiga professora de História desde 1898, passou por alguns lugares e depois foi lá para aquele bairro da zona norte.
- Faço tudo por você! Imito passarinho se quiser. Dou cascudos e chutes no traseiro do primeiro animal que eu encontrar pela frente. Converso com cachorro pit bull, mordo a orelha dele e se duvidar faço dele um cachorro quente. Continuo fantasiado de sapo para brincar com as criancinhas. Chamo urubu de meu louro, mordo minha orelha e o dedão do pé; tiro bala da boca de criancinhas,me transformo em profeta, começo a dizer coisas até que Deus duvida.
- Mas aí parceiro, que roupa mais estranha.
- Pedi emprestado ao Beto Chulipa a fantasia para não ser confundido com um sósia que enche o meu saco toda vez.que me encontra. Como gostei muito daqui, quero comprar estas terras, quero morar aqui com a família.Vou tirar muitas fotos daquela árvore. Olha bem a copa.
- Mas está a venda? Como vai comprar?
- Nem sei, nem quero saber. Quero comprar as terras deste antigo engenho, fazer vários campos, cada um mais moderno que o outro. Fiz contato com varias empresas estrangeiras, todas se mostraram interessadas.

terça-feira, 22 de abril de 2008

O Louco da Colina - Parte Dois









É um homem vestido de sapo, tentou falar o que estava em um caixote segurando uma boneca de pano. Cala boca maluco! È o Louco da Colina. Ouvi por muito tempo falar de sua fama de mau.Tão mal que nem pica-pau. Meu tio que foi garçom no boteco de seu Juaquim contava as maiores loucuras dele, cada uma de arrepiar, todas sinistras. Vamos nos esconder. É perigoso ficar por perto. Já tremendo da cabeça aos pés, foi à sugestão do mais medroso da turma que andava pra cima e pra baixo vestido de Gato de Botas. Calma pessoal, gritava enlouquecido o interno do Pavilhão 9, que ao saltar de cipó por pouco não pisava nos calos de Zé do Boi, que estava ali, por ter acabado com o seu serviço na cozinha. Cuidava da gororoba da turma. O apelido ganhou por conta das histórias incríveis que contava de seu tempo de vaqueiro, em que pegava touro à unha. Todos pediam bis, para contar mais histórias mesmo que ninguém acreditasse, todos riam e aplaudiam.

O estranho visitante, muito confundido pela maioria dos internos com um sapo, continuava com a caminhada, até chegada à sala do Doutor Simão, restavam uns cem metros. Como perdeu a calma por ainda não ter chegado ao local, passou a caminhar de modo apressado e bufando. Um engraçadinho escondido passou a orquestrar as primeiras vaias e xingamentos. Parou e começou a esbravejar contra o desconhecido, soltou cobras e lagartos, para seguir em frente, aliviado. Não sou de engolir sapos, nem gosto de comer pererecas.

Um enfermeiro barbudo, com mais cinco, atrás de uma porta aguardavam o novo paciente, para vestir uma camisa-de-força, tamanho GG tudo feito para que se sentisse confortável dentro da nova vestimenta. Quando viu passar o estranho visitante, reconheceu de imediato, foi o mesmo que ao ser chamado com urgência resistiu bastante ao internamento. Nem com o Sossega Leão, o deixou mais calmo. Vai ser um caos maior neste hospício quando num ataque de loucura, gritar que é Deus. Como é cobra criada, comentou baixinho para não ser ouvido.

Antes de chegar ao gabinete e ao dobrar a esquina viu uma árvore e saiu em desembalada carreira em sua direção, de um bote só, tratou de ficar agarrado ao tronco, que não havia jeito de soltar. Puxaram de um lado pro outro, e nada. Nem jogando água fria resolve. Solta a árvore! Solta! Larga! Do jeito que está, só dinamitando Psiu! Rápido! Fala com o Poeta, o assistente do Dr. Simão para pegar com urgência, lá na Casa Verde, no quartinho dos fundos, na prateleira de cima, um pacote dentro de uma caixa preta. O Doutor Simão vai aguardar mais alguns minutos para conversar, disse a secretária Neide.

Não houve jeito. Ficou tão ligado ao tronco que passou horas alisando de cima para baixo, depois de muito babado passou a beijar de estalar o tronco. Seu olhar hipnotizado ao ver o seu objeto de adoração, foi testemunhado pelos internos e pelos funcionários da Colônia. Coitado! Comentou o funcionário Seixas que soube uma vez por seu amigo, que ele se esforçava para ser um sujeito normal e fazer tudo igual.

Ajoelhado diante da árvore fez juras de amizade e amor eterno. O que tanto conversava ao pé da árvore, era o que queria saber um paciente que estava prestes a receber alta, pois ficaria em casa para tratamento. Precisa muita cara de pau, para se submeter a isto. É ele mesmo? Não conseguiram mesmo controlar a sua maluquez. Um senhor que cansado de tanta confusão, antes de voltar para a cama, comentou com o vizinho, nunca com a idade que tenho, vi com estes olhos que a terra há de comer, um homem ser tão aficionado por um tronco de árvore. É uma vergonha, vi lambendo, cheirando e alisando freneticamente o tronco.

Com o tempo ainda conseguiu da direção permissão para colocar uma grade de proteção, para que ninguém se aproximasse. Contratou um monte de segurança. Seu comportamento, muitos afirmaram que mudou para pior depois que viu o tronco da árvore.

Compadre, falou para o vizinho, que grande escândalo aprontou o homem fantasiado de sapo fez ao encontrar com o gordinho, baixinho e careca, aquele interno da ala 11 que chegou a poucos minutos e bate um bolão em nossas peladas de sábado. Ele não é interno compadre, ele é visitante, como joga muita bola, Tobias, este sim, que é interno da ala 11. Como não consegue ficar longe da bola, convidamos para jogar em nosso time. Ganhamos todas. Com ele, não há quem possa, mesmo com os fios brancos de seu cabelo.

Quem me bateu foi um cara do pavilhão 9, da galeria dos alucinados, um jovem de nome Alex Lunático ou Girafão como muitos gostam de chamar. Sabe quem é? Sei sim, é aquele que vive tropeçando nas próprias pernas ao correr na hora da ginástica. Pois é, disse que estava pendurado na grade, presenciou uma cena inusitada. O homem vestido de sapo ficou enlouquecido quando foi ao banheiro, esbarrou na porta com uma pessoa que parecia ser seu conhecido, trajando uma camisa com as cores em preto e vermelho. Quando encontrei com Girafão no corredor ainda ria muito daquele encontro. Não pude evitar ri também que nem louco, aliás, louco já sou.

Como fazia naquele tempo toda espécie de loucura lá na rua, a minha familia, não aguentando mais, resolveu me deixar aqui, acabaram que se esqueceram de mim. Ninguém me visitava, sai uma vez no Natal, fui encontrar com uma filha. Não tive coragem de falar com ela, nem cumprimentar, coisa que mais queria. Fiquei contente compadre Virgulino, só em ver os meus netos, eram dois meninos. Cada um mais bonito do que o outro. Umas lágrimas escorreram de meus olhos, não tinha lenço, acabei enxugando na camisa. Fiquei parado do outro lado da calçada, peguei um pedaço de papel, era um bilhete, que guardo sempre comigo. Olha como está rasgado e amarelado, dá para ler o nome dos netos. Vê se consegue? Consigo sim, compadre. Diz aqui no bilhete que são dois meninos levados da breca. Escuta compadre o escândalo que o homem vestido de verde, como se fosse um sapo, faz.

Filho, você aqui! Procurei você por todos os lugares. Caiu em seguida em um pranto incontrolável, balbuciava: Seu amigo da onça, quer dizer amigo, meu irmão, camarada, fiz tudo para você, ainda faço tudo por você, que ingratidão comigo, nunca, nunquinha, pensaria que fizesse isto com o seu amigo, sou o seu verdadeiro pai, um pai patrão, é verdade, mas acima de tudo um bom pai. Foi uma crocodilagem sem tamanho. Interrompia o diálogo para chorar pelo leite derramado. A que ponto cheguei não posso aceitar que tudo tenha sido feito em vão. Tudo que andam falando é uma mentira deslavada. Uma cascata.Você não disse o que andam falando por aí. Mesmo que repitam por diversas vezes, nunca será verdade.
- Tá louco quem é você?
Não conseguiu responder, soluçava muito.


segunda-feira, 21 de abril de 2008

O Louco da Colina - Primeira Parte









A Colônia recebeu com alegria incontrolável a notícia da chegada de um novo hóspede. Mais um! Mais um! Era o coro ouvido à distância. Foi uma loucura geral. Foi uma correria. Muitos chegaram a bater cabeça com cabeça. Uma pequena briga agitou o ambiente, mas foi logo apartada, era uma disputa pelo melhor lugar, nada que não pudesse ser resolvido com uma conversinha ao pé do ouvido com os donos do pedaço.Todos queriam ver aquele louco com fama de louco.

Eram dez horas da manhã, quando chegou. Assim que abriu a porta do carro, foi logo chutando um abelhudo que tirava fotos para uma revista. Deu um drible em um repórter e uma cusparada.Um velho papagaio de pirata passou a sua frente para pedir vários autógrafos, não deu nenhum, recebeu apenas sopapos e cascudos. Muitos que o conheciam sabiam que estava sempre dominado por violenta emoção, mas fingiam que nada acontecia, e quem era bobo de contrariar, virava logo um inimigo.

As noticias que circulavam antes deste providencial internamento, era que foi visto, berrando bem alto anunciando: Sou o dono do mundo e da bola, tudo isto aqui, é meu e de mais ninguém. Passou em seguida a insultar a todos, cuspir e dar sonoras gargalhadas pendurado no lustre do salão principal. Uma minoria que não era levada a sério, mesmo assim, afirmava que flagraram dando voltas e mais voltas em torno de si, na tentativa de morder uma das orelhas. O boato tomava conta do ambiente. Os pequenos grupos que ficavam do lado de fora na calçada conversando perto de um poste perceberam que um sujeito após vários murros começou a subir pelas paredes de tão enfurecido que estava. Não deu outra, era ele mesmo. Coisa de maluco era o comentário geral.

Tudo começou quando um operário numa bela manhã de agosto encontrou enterrado em um buraco com certa profundidade, coberto por muita grama; lá se vai alguns anos, um enorme objeto, na verdade, era uma caixa feita de madeira de dar em doido que se assemelhava em muito vagamente a uma urna. A noticia da descoberta, mal foi noticiada, para em seguida ser logo desmentida. Nada foi encontrado, assim foi declarado em nota oficial, era um simples osso enterrado por um vira-lata que morava nas redondezas e que foi confundido pelo ignorante trabalhador, com sendo uma urna.

O que se conta é que foi uma piração total, assim que recebeu a noticia do achado, com a boca espumando, olhos arregalados foi logo dizendo que era dele. Avançou sobre o objeto, arrancando dos braços do assustado homem. Tratou logo de dar um sumiço na caixa. Sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. De lá pra cá, passava o dia, vendo fantasmas, ouvindo vozes do além e imagens masculinas. Eis que de repente por uma delas, ficou muito fissurado, a ponto de exercer uma idolatria fora do comum. Por aquela, vamos dizer paixão, faria qualquer loucura.

Na hora de ir para casa escutou ao passar pela portaria, um senhor que trabalhava como porteiro comentar sobre a descoberta do colega, levou logo um pontapé no traseiro; a moça do cafezinho, que conversava com o seu Manuel, o porteiro, teve a bandeja derrubada por tapas em suas mãos, apenas por comentar entre eles que o objeto achado era muito bonito e deveria valer muito. Não suportou ouvir os comentários, mandou os dois para o olho da rua. Se tivessem alguma coisa a receber, coisa que duvidava que fossem reclamar pelos direitos na justiça.

Começava assim mais um dia de fúria, que a cada dia era mais freqüente. Ficava fora de si. Até que, não se sabe bem o motivo, apareceu de supetão, naquela velha instituição psiquiátrica da zona oeste.

A desculpa esfarrapada dada aos filhos, é que iria fazer uma visita ao museu;aos amigos que ali estavam internados contou uma lorota ao propor a compra daquelas terras para fazer campos e mais campos para jogar pelada com a família.Comentário geral em uma rodinha, com certeza, só pode ser louco. A família muito preocupada discutia entre si, uns achavam que eram os sonhos e pesadelos que tinha desde a infância. Era na verdade um menino rico e mimado, outros achavam que eram delírios. Era um comportamento estranho e preocupante. Por mais que estivessem feito previsões, deu no que deu. Muitas eram as manifestações egocêntricas, assim, encasquetou que tudo que via pela frente, era dele e ninguém tascava. Tudo e todos giravam em torno dele.

A direção o aguardava. Depois de dar os primeiros passos, bastou um interno fazer caretas para logo partir para cima do homem, um senhor com anos de internamento. Daqui, pendurado desta grade me parece que é um enorme sapo e com nariz de Pinóquio que está se aproximando, berrou apavorado o sujeito que levava a fama de biruta que trabalhava na lavanderia. Também vejo um sapo, gritou o que estava em cima da árvore, chupando manga. Vejo um grande sapo, disse o anão encostado ao muro. Um sapo gordo usando cartola e carregando umas tralhas debaixo do braço. Se ficar internado aqui, será um louco de carteirinha. Vai ser doido de pedra. Um louco de curiosidade deu um salto e acabou vendo do que se tratava, mas saiu em louca disparada, rindo que nem louco, sumiu, após dar uma cambalhota, não espalhando o que tinha visto.

Não acredito no que estou vendo! Quando me contaram não acreditei. Belisca, belisca, me belisca que vou dar um troço, disse a secretária Neide, este hospício vai virar um inferno. É o mais louco dos loucos. Pelo amor de Deus, vamos mandar ele de volta. Por qualquer coisa, fica furioso. Tudo tem de ser respondido do jeito que quer ouvir, caso contrário sai distribuindo catiripapos nas pessoas, sobra até para quem estiver passando na hora. Um interno de bigodinho bem aparado, engravatado, segurando “Mein Kampf”, escondido atrás da porta, ficou louco de alegria em saber de quem se tratava. Achou que demorou muito em aparecer. Estava faltando ele, o nosso líder, nosso messias aqui neste hospício. Hei, hei, será o nosso Rei. Heil! Heil! ! Sieg, Heil! Heil! Heil Führer! Führer mein Führer! Anauê! Entoava as velhas saudações dos tempos em que era chamado de galinha verde. Será o nosso profeta. Fez as saudações costumeiras ao homem que passava, que respondeu de imediato esticando os braços e com um largo sorriso de aprovação. Passo depois para lhe dar um beijo, gritou para o homem do bigodinho e seguiu em frente em direção do gabinete do diretor.(Continua)

domingo, 11 de novembro de 2007

No Reino da Bicholândia: o discurso do Sapo.


















A Patativa veio de Assaré, resolveu sair do brejo de onde morava para conhecer o Reino da Bicholândia. Tinha lido em um jornal velho que o vento lhe trouxe; noticias do líder que presidia a Bicholândia, em uma entrevista bomba feita pelo Velho Papagaio; o Sapo em seu coaxar diário na varanda do palácio andava reclamando das aves agourentas e dos tucanos que se queixavam por qualquer coisa que o seu governo popular e democrático realizava. Estava cansado, cheio destes animais irracionais, que não compreendiam que a Bicholândia caminhava firme com o propósito de chegar rápido em um estágio de desenvolvimento jamais visto em qualquer mundo, seja ele dos vivos ou dos mortos.

O Sapo andava irritado e deste modo, desencadeava coisas em seu discurso que eram incompreensíveis para o seu eleitor, a grande maioria dos habitantes da Bicholândia. Já não dizia cré com lé, lé com cré. Uma barata cascuda, sua eleitora de outras eleições, ficou revoltada, sem compreender o que falava o magnata Sapo Barbudo, acabou saindo do local completamente tonta, sem saber que rumo a tomar. Um vira-lata biscateiro que recolhia latas e garrafas importadas no jardim do palácio, também por não entender nada colocou sebo nas canelas e foi embora.

Da varanda o líder magnata lançou um olhar de esguelha e viu a mula jornalista, acompanhada por uma anta, que participaram de sua ultima coletiva, eram as mesmas que espalhavam notícias no jornalão que o governo reeleito, ia de mal a pior. Um assessor, o melhor amigo do sapo de longa data, sindicalista como ele, tomou as dores pra si e começou a rosnar e querer abocanhar a perna da mula. A anta que acompanhava a mula começou a espernear. Surge não se sabe como, quatro macacos que faziam à segurança do palácio diante delas. É para convidar a anta e a mula se retirarem do local o mais rápido possível, latiu o policial alemão. São ordens! O macaco mais alto conseguiu dar uns catiripapos e sacolejões na mula, que acabou dando o pinote. A anta apavorada levou uma rasteira, correu e não conseguiu pegar o celular e telefonar para o jornal. Deu de correr pela estrada afora.

A Patativa pensou que ia sobrar para ela, acabou por ficar escondida no galho mais alto da árvore, dali viu uma carroça de turismo estacionar na calçada e mariposas voarem em direção ao líder da Bicholândia. Viva o Sapo! Viva! Uma verdadeira algazarra feita por besouros que acompanhavam as mariposas. Minutos depois chega o canário do reino, pedalando um velocípede, fazia parte da comitiva, era o cantor de um grupo de pagode convidado para cantar nos eventos do palácio. Um galo cantor também compareceu, acompanhado de oito gatas sambistas. A Rádio Papagaio montou um estúdio móvel. Pirilampos a postos, fotografavam tudo.

Por volta das 15 horas e dois minutos, muitos animais sorridentes e os poucos humanos estavam em um tremendo alvoroço aguardando o pronunciamento do Sapo, que antes de começar foi interrompido por uma queima de fogos. Uma cadela ministra interina, ex-militante, sempre com cara de poucos amigos, acabava de chegar, aproximando-se do grupo. O Sapo assim que viu a ministra deu uma piscadela para ela. A perereca sua companheira, flagrou o sinal e deu um beliscão no braço do sapo e uma pisada no dedo mindinho de seu pé. Reclamando deu de pular de dor. Enquanto pulava, os animais presentes, os asnos e jumentos que estavam mais próximos ovacionavam o líder, imitando a seguir com pulos e coices a torto e a direito.

Era chegada à hora, faltavam poucos minutos, o Sapo de onde estava e de um pulo só, foi direto para a tribuna. Agora como magnata achou por bem colocar uma gravata, antes abandonada, enlaçou com dois nós e pegou o microfone. A perereca entusiasmada com o novo discurso aplaudiu freneticamente.

Começou o discurso improvisado: Não vou me transformar de Sapo em príncipe. Aqui nesta terra, que me desculpem os ecologistas e a numerosa família de ofídios, mato a cobra e mostro o pau.

- Habitantes da Bicholândia seja do mar, da terra ou do ar quero dizer para vocês que nunca, jamais houve na história deste reino uma preocupação com o bem estar de vocês e com o progresso. Pela primeira vez e digo isto com orgulho de um Sapo, que morou em brejos secos, em beira de lagoas, que passou as maiores necessidades, um misere danado. O nosso governo popular conseguiu com muito esforço igualar aos humanos a sua verdadeira condição de animais e aos animais a sua verdadeira e real condição. Fizemos a verdadeira revolução da espécie, os animais, a pedido de vocês, permanecerão como estão e os homens a pedido deles foram transformados em verdadeiros animais.

Para não dizer que não falei, os hospitais públicos continuarão como estão, pois alcançamos um nível de atendimento inigualável com poças, sem higiene e imundice por todos os lados; infiltrações e lixo para todos sem distinção de raça. Os homens de brancos a partir de hoje tratarão rigorosamente vocês como animais, com um atendimento ímpar. Nossa gestão nos hospitais, jamais vista, conseguimos com muito custo e com fortunas gastas na manutenção das precariedades, atendendo exclusivamente o desejo de vocês. Não vejo motivo de diminuir as filas no atendimento, se vocês só gostam de enormes filas. Se não gostassem de filas não precisariam, madrugar nas filas.

O povo animal adora visitar os hospitais repletos de animais doentes para ficarem internados, por puro instinto de imitação, para isso providenciamos a falta total de médicos. Construímos diversos berçários para as cegonhas, que nenhum outro governo ousou fazer. É verdade que há muito tempo, não passo por uma destas unidades que reformamos. E nem quero passar. Fui informado por dos meus ministros de minha inteira confiança que foi feita um reforma para continuar tudo como está. Neste dia, encontrei uma infinidade de burros na fila do hospital, pior que recusaram a minha sugestão de líder para voltarem para casa e retornarem ao hospital daqui a doze meses. Os burros, meu povo, são teimosos empacam por qualquer coisa, ficam engrossando a fila. Não admito sob hipótese alguma que o nosso povo animalesco por natureza seja equiparado aos humanos .

Vejam só! Construímos para o nosso orgulho e atendendo as reivindicações dos sindicatos da classe, diversos caminhos nas estradas, mantivemos os buracos maiores ou menores para os que gostam de viver em buracos, como os tatus-mulitas, que insistem em desaparecer deste verdadeiro reino encantado; as vias vicinais enlameadas para os burros-sem-rabo; deixei o mar, lagoa, rios e lagos a disposição permanente dos camelos em caravana ou não. Aumentamos o número de pousadas para os pássaros e seus filhotes. Ampliamos em duas o número de escolas em todos os graus de ensino.

De hoje em diante nenhum mamífero morrerá atropelado nas estradas, colocaremos placas com avisos. Não corram! Perigo! Animais racionais ao volante! Cuidado! Sinalizações serão suficientes, morrerá agora quem quiser. Aos tamanduás enfeitaremos com a cor do pavilhão suas bandeiras.

Meu governo popular construiu milhares de casas para qualquer joão-de-barro que se filiar ao programa da casa própria. Diversas e confortáveis tocas com ar refrigerado para as raposas. Casulos com beliche para os solitários e ninhos para os urubus. Oferecemos gratuitamente diversas vespas para as vespas como meio de transporte e sobrevivência, podendo fazer lotadas. Daremos pérolas aos porcos. Serviço odontológico para os peixes. Pastos verdejantes para boi dormir. Serviço de primeira para aparar jubas de leões e barbichas de bode, com financiamento da caixa do reino. Dois mil leitos para girafas e dromedários. Cinco mil paus de arara.

Colônias de férias para toda e qualquer espécie de animal. Daremos uma bolsa de meia pataca como ajuda para tratamento de saúde mental animal aos que necessitam principalmente aos cachorros e gatos de madames, que reclamaram deprimidos com o estado em que vivem; basta um telefonema para agendar e assinarem com um x em concordância, as meias patacas estarão creditadas em menos de cinco segundos em suas contas bancárias. Isto é uma prova da alta tecnologia que o governo popular implantou. Aos aposentados e pensionistas bípedes ou não, passarão a ganhar muito menos para evitar desperdício na compra de rações e futilidades. Com a poupança saberão investir na bolsa e poderão financiar pacotes de turismo. Um governo com a cara do povo e trabalhando como principal preocupação com a saúde animal e a sua sobrevivência. Um governo popular igual a este está para nascer. Quero me despedir dos animais que votam e me apóiam, mas digo também para aqueles que por razões que só o coração desconhece não conseguiram votar em mim.

Deixo para vocês um recado. Não adianta insistir não quero mais ser reeleito. Silêncio tumular nenhum zumbido foi ouvido.


Paula Figueiroa Rego : Artista portuguesa, oriunda de uma família burguesa, nascida em Lisboa em 1935. Sua familia muda-se para o Estoril em 1938. Vive em Londres desde de 1976. Nos anos 60 participou de diversas exposições coletivas na Inglaterra. Considerada na Inglaterra como uma dos quatro melhores pintores vivos do mundo.















quarta-feira, 7 de novembro de 2007

O Pato e a Galinha





Foi um escândalo o Pato surrou a Galinha, que andava aprontando e ciscando no terreiro alheio, acabou sobrando para o marreco que fazia companhia na hora em que chegavam tarde da noite, vindos de um passeio. Há muito tempo que o pato andava desconfiado. Onde você foi? Com quem estava? Um espiríto de porco falou para mim que você estava cacarejando com uma capivara na beira da lagoa. A galinha soluçando pediu desculpas pelo atraso, pois estava sem condução e pediu uma carona ao marreco, que prontamente atendeu. Somos amigos de infância,cacarejou bem alto. Um gavião espreitava à distancia, pois sondava o terreno. Estava doido para meter o bico e a colher nas brigas do casal; queria apenas dizer que: galinha que acompanha pato, morre afogada!

Cada vez o Pato ficava mais grilado. Era dia sim, dia não. Resolveu caminhar e em conversa com o gato, manifestou sua preocupação. Escute só meu velho amigo, espalham aos quatro ventos que minha companheira de longa data é uma verdadeira galinha. Não acredito! Não acredito! Grasnava irritado. O gato soltou uma gargalhada. Deixa disto pato, a sua companheira, realmente é uma galinha. Sem graça pela reação do gato, esboçou um leve sorriso e saiu de fininho sem entender o motivo da gargalhada do gato. O Pato cabisbaixo foi direto para a lagoa, precisava relaxar e nadar. O ganso que descansava de papo pro ar na grama, quando viu o Pato, foi logo perguntando pela galinha, sua companheira, ainda continua com ela? O Pato encucado respondeu com uma voz rouca. Ora ganso! Trata de sua vida, pois minha companheira continua sendo galinha e ninguém tem nada com isso. Vivo com quem eu quero! Não é por ser um pato que eu não posso namorar uma galinha.

Do alto de uma árvore o macaco sentado em um galho logo disse: Olha macacada espia quem vem andando? Vem lá o pato pateta, coçando a cabeça. Será que a dona galinha abandonou o pato? Escuta pato! Bom dia! O pato passou lentamente com o seu gingado e fingiu não escutar o chamado. Psiu! Psiu! Virando-se colocou uma das asas na cintura e indagou?

-Quem me chamou e o que quer?

-Sou eu, seu pato, daqui de cima do galho respondeu o macaco. Gostaria de saber, prendendo o riso. Como vai aquela galinha, sua namorada?

- Você conhece a minha namorada?

- Claro seu pato, e quem não conhece. Pode perguntar a qualquer um, ela é muito conhecida. Ela é muito dada. A risada foi geral entre a macacada. O Pato começou a ficar irritado.

- Escute aqui seu macaco de uma figa! Chegou a dar dois empurrões no macaco peludo, que estava a sua frente, zombando dele Uma confusão foi armada. Me solta, me solta grasnava o pato, enquanto era segurado por dois papagaios e um galo que passavam na hora da confusão.

- Me larga! Vou dar patadas e bicadas naquele macaco intrometido.

- Calma! Amigo Pato! O macaco perguntou pela galinha que anda com você, apenas, isto. Aquele macacão lá de trás disse que ela era uma galinha. Mas não é a galinha sua namorada? Sim, há muito tempo que ela é minha namorada. Os dois papagaios e o galo se despediram do pato. Tchau!

É verdade, pensou com os seus botões, a galinha é a minha namorada. Desistiu de continuar com a caminhada e voltou para casa. Pegou a chave no bolso, abriu a porta e foi logo perguntado pela galinha. Onde está você? Olhou para o poleiro, estava vazio. Não houve resposta, nenhum cacarejo. Tarde da noite o pato desperta com as batidas na porta. Quem é? Sou eu, a sua namorada, a galinha. Abriu a porta e entrou, deu dois beijos no pato e foi dormir.

*Dedico o texto em exposição aos meus netos, Ramom e Ricardo e a minha companheira Marilene.




Celso Githay: Artista plástico, grafiteiro com premiações internacionais e nacionais. Nascido em São Paulo, em 1968. Herdeiro da sensibilidade artísticas dos pais, João e Jurema. Celso nos anos 80, manifestou interesse pelo movimento Punk, estabelecendo contatos com as bandas Psycoses e Estado de Coma. Formado em artes plásticas pela Faculdade de Belas Artes de São Paulo. Aproxima de vários artistas paulistanos que usam o graffiti como linguagem de comunicação nas áreas urbanas da cidade de São Paulo. Criou o projeto "Graffiti é legal, junto com o professor de ciências Hernani Facundo e o apoio da Secretaria Municipal de Educação. visando oferecer informações sobre a arte do pichador. Celso é bem atuante, produz textos, cursos, palestras e imagens para diversos suportes. Seu trabalho pode ser visto pela internet e em exposições espalhadas em nosso país e em páginas que acolhem artistas que trabalham com graffiti. Vale a pena conferir, é da melhor qualidade.

sábado, 27 de outubro de 2007

Reino da Bicholândia : Em dia de festa

Noticias de última hora, em edição extraordinária dadas pela Anta de plantão, informando de que haveria festa no Palácio tomou conta do Reino da Bicholândia. A noticia foi espalhada como rastilho de pólvora. Uma gatinha manhosa parada diante do portão, comentou com o gatão: - Morzinho também quero ir à festa.
Alto-falantes foram espalhados pelas redondezas, bandeirolas penduradas em galhos, postes e passarelas decoravam o ambiente. Uma festa para nenhum amigo do peito botar defeito. Do lado de fora, um bando de tucanos fora do ninho se engalfinhou na disputa por convites para uma festa de aniversário. Deu pra ouvir de um tucano no meio da confusão, que ele não perderia de jeito nenhum a festa, dando em seguida uma rasteira em seu oponente. Bicadas afiadas foram trocadas, penadas de toda ordem poderiam ser vistas por quem passasse pelo local. Muitas carteiradas foram distribuídas a torto e a direito para que um deles entrasse na festa. Se não fosse a valentia de um dorbeman ranheta de óculos escuros, poderia haver naquele momento uma invasão no recinto, podendo provocar chiliques, arranhões e desmaios. Mutucas e garças sobrevoavam o local de helicóptero filmando a movimentação em torno do palácio. Faixas isoladas de protestos foram recolhidas pelos leões-de-chácara.

Duas focas free-lances, acompanhadas por duas moscas estagiárias carregando câmeras digitais, observavam a distância os acontecimentos para passar informações de primeira para a redação do jornal de oposição A Voz do Mundo, maior matutino da Bicholândia, corriam e voavam contra o tempo.

Calma! Gritava e latia enlouquecido um policial a paisana, que fazia parte da segurança do Palácio. Vai ter comida e bebida para todos, tudo por conta do nosso líder. Viva o nosso líder! Repetia seguidas vezes um papagaio empoleirado em um caminhão estacionado em uma calçada. Cala a boca sua maritaca! Guinchava para ser ouvida uma chimpanzé de um bando vindo da periferia no meio da muvuca. O papagaio não deu nem bola, não era com ele, continuou repetindo. Pois não era mesmo, era um papagaio e não uma maritaca. Não distante dali, ratazanas enfurecidas disputavam e reivindicavam mais convites para a festa. Acompanhamos o nosso líder no inicio de sua carreira, quando ainda era um pequeno rebelde girino,vindo do interior, queixou-se um ativista sindical. Uma coruja com ares de intelectual, pertencente ao comitê partidário e em companhia de um camelo, dois burros e uma cobra estavam na porta de entrada do palácio. Aguardavam em vão pelas credenciais.

Uma gralha tratou de espalhar que o povo morador, os sem-dentes, trabalhadores vertebrados e invertebrados e os sem-teto da parte baixa da floresta da Bicholândia não seriam convidados; muitos não acreditaram no que ouviram e leram.

Uma hiena que tomava uma cerva bem gelada em uma birosca danou de rir, gargalhava sem parar. Solta mais uma lourinha, seu Juaquim, hoje o dia vai ficar quente. Um amigo da onça no fundo do bar fazia anotações e falava ao celular. Um porco sonolento, com um palito no canto da boca, percebeu que o vizinho de mesa, marcava para levar ao festejo, cinco tigresas, seis cachorras, quatro lebres, oito gatas, doze panteras e mais convidadas que pelo efeito de seu sono, não deu para ouvir. Foi o que disse depois que acordou para o velho carneiro seu amigo camarada do movimento sindical. Um crocodilo estabanado entrou derrubando mesas, garrafas e cadeiras, foi direto ao mictório, não se deu conta que ali na fila estava um veadinho com uma galhada parado esperando a vez.

No Reino era um agito só, todos comentavam sobre a festa do chefe da Bicholândia. No lado de fora, um hipopótamo do serviço de entregas de uma empresa terceirizada, vindo de moto, trazia sob encomenda do líder, caixas de perfumes importados franceses para oferecer a sua companheira perereca. Falava-se a boca pequena que o Sapo Barbudo gostava de ver a sua perereca toda perfumada e sorridente para os convivas e a mídia. Ainda mais esta ultima que andava a falar e escrever aos quatro ventos por pura implicância com ele, sua família e seu democrático e popular governo.

Sabem com quem estão falando? Berrava o Bode Ludovico, sem antes pisar em um burro prostrado diante do palácio. Era necessário berrar, pois sob disfarce, ficava difícil alguém reconhecer o velho companheiro. Um pinto aposentado tinha sido posto pra fora, indignado reclamou. Trabalhei anos a fio e como não sirvo pra nada, me enxotam, me colocam na rua. Ludovico aproveitou o cochilo da preguiça de plantão para chamar pelo interfone o chefe. Não acredito você aqui? Bode, juro não sabia que você tinha voltado. O sapo começou a tossir e espirrar, deu cambalhotas, saltitante beliscou o beiço, puxou o dedo do pé. Era verdade. O Bode em pessoa. A festa de tão cheia que estava que começava a ficar apinhada de animais. Todas bestas dos partidos de oposição estavam presentes. Ludovico de um salto só, parou no gramado verdejante do palácio. Foi muito aplaudido.

Senhores e senhoras do mundo animal, presentes e com presentes caríssimos ofereceram ao chefe, que de uma hora para outra pulava cada vez mais alto, babava de tanta felicidade em sua camiseta verde-amarela, por estar com os velhos amigos. O velho Bode Ludovico cansado de guerra, esperto que só ele, ouviu e fingiu ouvir que do lado de fora, do outro lado da calçada manifestações de protestos de poucos bezerros-barnabés e vaias sonoras começaram a ser ouvidas. Uns gatos pingados forçaram a entrada, depois pularam o muro para começar a dançar funk. Um urubu se achando o rei do pedaço começou a dar em cima de uma abelha-rainha, acabou se ferrando todo. Foi voar em outra freguesia.

A ordem dada de imediato foi para dispersar a multidão sem violência, com gás de pimenta, bombas de gás lacrimogêneo e cacetadas, apenas para os que pediam e insistiam em apanhar, os verdadeiros animais. O primeiro a ganhar uns cascudos no cocuruto foi um galo xiita, usando boné com propaganda de uma Ong. Mandaram logo baixar a crista. Não toleramos manifestação desta natureza, colocaremos no xilindró quem ousar desobedecer. O Sapo estava uma arara. Estes funcionários públicos tumultuam o meu governo democrático e popular, volta e meia entram de férias prolongadas. Um grupo de famélicos banguelas com pires na mão reclamavam; Sapo Barbudo, não pensou duas vezes, para estes laboriosos animais em especial, mandou o Chefe da Guarda, distribuir generosas bolachas.

O Sapo Barbudo chamou os amigos, os velhos amigos, um por um e deu inicio a festa, com a certeza absoluta de que ali, animais intrusos ou não, não seriam mais bem-vindos. Vai rolar a festa, vai rolar. Uma festa de arromba.

Imagem: Fernando Cabezudo - Nasceu em Montevidéu, Uruguai, em 1927. Suas obras estão espalhadas em seu país e no exterior. Centro Cultural São Paulo

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Reino da Bicholândia : A Volta do Bode Ludovico














Ludovico ficou impaciente ao aguardar no sinal, para atravessar a pista. Ameaçou duas vezes e desistiu. Os carros, velocípedes em velocidade e os humanos, o deixavam muito assustado. Enfim, quando atravessou, quase que tropeçou nas próprias pernas ao andar mais rápido. O reino da Bicholândia parecia um paraíso. Um reino encantado.

De longe, avistou o Sapo Barbudo, enquanto aguardava a vez, tagarelava sobre etanol com uma charmosa avestruz militante, encostados em um palanque; pelo sorriso estampado do Sapo, percebeu que estava muito feliz com este encontro. Três hienas sem dentes e sorridentes em pé no muro, aplaudiam entusiasmadas. Passaram a gritar alucinadamente no megafone: o Chefe é bom companheiro, o chefe é um bom companheiro, o Sapo é um bom companheiro, ninguém pode negar! Pastores e lobos arreganharam os dentes com a aproximação do ilustre visitante.

Do outro lado da calçada do Palácio, tapadas por enormes biombos, burros desempregados, patos enfermos e gansos vindos de afogamentos, enfrentavam filas e mais filas em busca de seguros-desemprego. Um cavalo fardado de segurança do posto deu alguns coices em um irado camundongo que esbravejava sem razão que tinham furado a fila. Estava ali desde cedo, sem comer nem um pedaço de queijo, acordara por volta de quatro da matina e agora via um jumento passar a sua frente. Estes animais sempre reclamam de barriga cheia, estão viciados, zurrava em bom som um jerico uniformizado, ao lado de dois vigilantes gorilas.

O arqueiro Zen chegava a galope em seu velho pangaré, todo esbaforido, com noticias do Planalto. Acabara de receber um envelope pelo pombo-correio. A Rádio Papagaio, mais do que de pressa, em nota oficial esclarecia, pela anta de plantão que a Águia mandara evacuar o recinto repleto de autoridades, pois suspeitava de algum membro da comissão de frente, estava ali infiltrado, sob as vestes de um famoso terrorista candango, segundo informações sigilosas, havia uma observação neste sentido no relatório improvisado, avisando, que um suposto agente com aparência de um animal peludo e chifrudo, teria explodido uma bomba de chocolate no chão da quadra da escola de samba. Perseguido em vão, o desconhecido acabou por embrenhar-se no mato. Soltaram os cachorros, mesmo assim acabaram dando com os burros n água. O animal peludo e chifrudo nunca mais foi visto nas redondezas. Uma besta jurou ter visto o terrorista despido soltando fogo pelas ventas.

Ludovico entre uma baforada e outra, assistiu aquela circense cena, caiu na gargalhada e não percebeu que Dom Ratón, antigo agente da Ilha, passou por ele e o reconheceu. Por sua longa experiência, Dom Ratón, percebeu que se tratava de um disfarce que o companheiro de longas jornadas noites adentro, estava correndo perigo. Aproximou-se do antigo companheiro e pediu para acender o charuto. Dom Juan Ratón, desenvolvia projetos para o turismo. Espalhou agencias em vários pontos do país. Havia acabado de inaugurar uma agencia de encontros para a prática de sexo selvagem, com as melhores gatas e galinhas do pedaço.

Continua.





Rossini Quinta Perez : Nasceu em 1932, na cidade de Macaíba, Rio Grande Norte . Gravador, Pintor e Fotógrafo. Foi aluno de Fayga Ostrower. Trabalhou como assistente da gravadora Edith Behring. Na Europa foi bolsista da Unesco em um curso de litografia na Rijksakademie van Beeldende Kunst de Amsterdan; residiu em Paris até 1972. Retorna ao Brasil nos anos 70 e passa a residir em Brasilia. Participou de diversas Bienais, de exposições individuais e coletivas. Desenvolveu trabalhos com Farnese de Andrade Ganhador de diversos prêmios Sua obra faz parte de importantes acervos particulares como: Gilberto Chateaubriand e Kiri Te Kanawa. Documentou as transformações através da fotografia da paisagem urbana de nossa cidade , entre as décadas de 70 a 90. As imagens podem ser vistas em coleções do Instituto Moreira Salles (IMS).Vive no Rio de Janeiro.
Fontes de consulta: Itaú Cultural, Tribuna da Imprensa Museu Castro Maya , Universidade Estácio de Sá MNBA

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

O Homem e a sua bolsa - Primeira Parte

Caminhava para o ponto de ônibus, atravessou próximo aos Arcos da Lapa, fez um sinal de saudações com a cabeça ao avistar um velho amigo em pé, diante da entrada do Plaza, deu uma rápida passada pela Livraria Página, na Rua das Marrecas. Ao voltar, algumas mulheres estavam ali na esquina, olhou e não encontrou quem queria encontrar. Seguiu pela rua do Passeio, passou sem olhar as vitrines da Mesbla, o que dificilmente faz, pois passa vez por outra na seção de discos, estava atrás do último LP de Clara Nunes, Brasileiro Profissão Esperança pela Odeon, tampouco reparou o cartaz da peça de teatro, olhou por instantes o cartaz do filme estampado no Cine Palácio e dobrou à esquerda na Rua Senador Dantas, parou em frente ao cinema Vitória, colocou a mão no bolso e pegou as moedas de um troco que tinha juntado para comprar algumas revistinhas de passatempo da Tecnoprint.

Pediu desculpas, ao dar um encontrão, para uma das moças que circulavam pela calçada em busca de companhia. Viu quando o ônibus 136: Leopoldina-Bairro Peixoto, acabava de sair do ponto. Mudou de idéia, não iria para casa naquela hora. Por pouco teria esquecido de um encontro. Chegaria bem mais tarde, não daria tempo para assistir ao Bem Amado na televisão. Nem ligou para as louças jogadas na pia do dia anterior, véspera de um jantar aconchegante com Simone, que lhe fez companhia durante toda a noite, que pela manhã saiu não sem se despedir como de costume, pegou o dinheiro deixado reservado na gaveta da escrivaninha, fechou a porta devagar, desceu pelas escadas. Simone evitava ser vista ao sair do apartamento, às vezes encontrava com seu Manuel, o porteiro lavando a calçada, cumprimentava e seguia rumo ao ponto de ônibus. Duas vezes por semana, tinha este encontro marcado.

Voltou a chover ao anoitecer. Detestava usar guarda-chuva, preferia a velha capa. Era o último dia do mês. A chuva aumentava de intensidade no centro, as ruas com bueiros entupidos, começavam a ficar alagadas. As obras na cidade tumultuavam o ambiente, era um caos.Obras do metrô esburacavam a paisagem. Um grupo de pivetes passou correndo por ele, chegou a ficar assustado. O pagamento saiu no final do dia. Tinha sido descontado o vale, pego em uma emergência. O que recebia não dava para muita coisa de extraordinário.

Olhou de um lado ao outro da calçada, também para o relógio e não viu quem esperava. Pudera, não estava ali. Ele pela segunda vez, voltara ao mesmo local. Conseguiu com dificuldades falar ao telefone, depois de várias tentativas, ninguém atendia.Economizou as fichas que havia comprado.

Comprou Dulcora misto, era um hábito, colocou no bolso da calça. Na Cinelândia ficou em dúvida qual filme assistiria, se no Pathé ou Capitólio. No cinema Orly na Alcindo Guanabara, a sessão havia começado, ainda viu o último espectador, um senhor, passar pela roleta. Desistiu. Atravessou a rua, rápido no meio do trânsito. Se ela tivesse aparecido, poderia assistir a um lançamento no Metro Boavista. Tinha lido uma resenha de José Carlos Avelar no Jornal do Brasil. Antes tinha passado pelo Cine Rex, na Rua Álvaro Alvim, não gostou do filme em cartaz; resolveu tomar cafezinho e pedir um maço de Minister. Pretendia ir ao cinema e estava em busca de sua companhia. Não esperou acabar o café, acendeu o cigarro. Estava inquieto, preocupado.O relógio da Mesbla, parecia marcar o momento de espera, dez minutos ou meia hora, não fazia diferença. Não tolerava atraso. Costumava ser pontual, ela não.Acendeu outro cigarro. Outro em seguida, desta vez, pigarreou. A chuva havia parado. Desviou das poças e seguiu o seu caminho. O seu caminho de volta. Preferiu pegar o ônibus na Cinelândia, ficou aguardando por um bom tempo, enquanto assobiava Gândola, Vila Morena.

Aquele homem franzino, de passos ligeiros, uma rala barba no rosto, estava sempre com aquela bolsa a tiracolo. Havia uma grande curiosidade da parte de alguns vizinhos e colegas da firma, piadinhas rolavam, no momento em que passava. Simone da última vez que estiveram juntos, também ficou curiosa, chegou a comentar com ele. Dava de ombros, não ligava. Andava com aquela bolsa, parecia fazer parte do seu corpo, em qualquer lugar que fosse, estava com a bolsa, até mesmo no banheiro, era a sua companhia inseparável para aqueles momentos de privacidade. Parecia - comentou Helena sua colega pela parte da manhã no escritório - que o seu mundo estava ali guardado, escondido, carregado. Não poderia ser visto. Estava vedado a curiosidade alheia.

Observação: Imagem exposta pertence ao acervo da artista plástica paulistana Niobe Xandó. Nascida em Campos Novos do Parapanema, em 1915. Importante e talentosa artista, com exposições em nosso país e no exterior. Dona de um acervo muito rico e com características muito especiais. Produzindo em óleos e acrílicas sobre tela, trabalhos em serigrafias, em nankim e caneta sobre papel, que foram expostos no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Os trabalhos podem ser examinados em sua bela página. " O Suicida", 1957 - 16 x 21 cm

Continua.

terça-feira, 4 de setembro de 2007

Apresentação

Olá!

Há muito tempo que venho amadurecendo a idéia de criar um novo espaço de comunicação, superada a dúvida inicial, acabei hoje de dar corpo e alma ao blog Esquinas do Tempo. Verdade, que hesitei bastante, se não tenho dado conta do antigo, como poderia assumir a confecção de um novo espaço. Pretendo aqui, deixar textos escritos ou reescritos. Alguma coisa que entendo como uma literatura destinada ao meu blog, sem muito compromisso, apenas trabalhando em sua forma de rascunho, sem um público definido ou em busca de um público. Seria um exercício, uma experiência em lidar com novas formas de linguagem. Eu aqui, diante de um "espelho", com intuito de refletir, escrever ou dizer coisas que venha da "telha". Ainda, deixo claro, que lido com certa dificuldade em escrever, uma atitude solitária, é verdade, mas não me habituei. Muitas vezes dá um branco, um lapso, um vazio, que eu gostaria que fosse preenchido. Levanto, tomo água ou café, saio, volto e às vezes, para continuar tudo em brancas nuvens.

O motivador maior de meu blog, na verdade foi o outro neto, o segundo, de nome Ricardo. Como o primeiro blog foi estimulado pelo nascimento do meu primeiro neto Ramom, fiquei assim em débito com o segundo, que pouco mencionei em meus escritos. Hoje os dois transformaram referência para o meu cotidiano. As coisas do meu dia a dia, sempre passam pelos cuidados com eles. Os dias da semana que ficam conosco (Eu, Marilene e Adélia, mãe de Marilene) servem de preenchimento com satisfação e alegria da convivência desde das primeiras horas do dia. Somos de alguma forma coadjuvantes deste momento em que eles passam a protagonizar as cenas. A rotina naturalmente é quebrada, ou melhor, alterada. Mas vale a pena, ter netos é viver um momento de encantamento e surpresas.

Achei o texto que postei em minha gaveta, ali em silêncio, pedindo par vir a luz, o resultado depois da prévia leitura, resolvi publicar. A sorte está lançada!

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Estou a ponto de fazer uma loucura, disse em voz alta e irritada ao telefone, Maria para sua mãe. Em seguida desligou com um gesto brusco o telefone, batendo com violência. Continuou desta vez, falando sozinha, para as paredes como gostava de dizer. Olhou para o relógio, ao avistar a hora ficou mais irritada; também percebeu Júlia em seu quarto de dormir, pelo barulho que fazia a mãe na sala. Que saco! Reclamou Júlia. Nem foi ouvida.

Júlia levantou, abriu uma das janelas, o sol de Copacabana acabava de invadir o seu quarto. Em outro quarto, Marcelo não se dava conta do que ocorria a sua volta, continuava a dormir um sono solto. Nada o incomodava, tinha chegado tarde e deixado um aviso pendurado na porta da geladeira, com letras garrafais, que estavam proibidas de acordá-lo antes das 10 horas. Maria costumava ignorar estes avisos quando tinha necessidade de falar com o filho. Era um dos poucos horários em que havia um encontro, embora, não fosse o ideal, ele dormindo, ela acordada. Sacudidelas em Marcelo e a voz alta era a senha para que ele levantasse e escutasse o que a mãe queria.

Júlia caminhou se arrastando do quarto para a cozinha. Esquentou o leite e ficou também irritada ao notar que a mãe não tinha feito o café. Queria pão com mortadela. Viu que estava em falta, nem pão, nem mortadela. Resmungou em seguida, para apanhar o pacote de biscoito salgado no armário. Ninguém faz nada nesta casa, o recado, o único, era para quem ouvisse. Ouvir música era o que mais gostava.

O telefone toca, Júlia corre para atender, era a avó querendo falar com a mãe. Recomeçam com a conversa anterior.

- Mãe sabe que horas são? Pois é, Gérson ainda não chegou.

- Calma minha filha.

- Há muito tempo que ele está assim Tenho reclamado. Juras e promessas de mudanças são encenadas.

- Ele continua reclamando de mim de que estou gorda. Disse e repetiu. São coisas que machucam, me deixam pra baixo. Que eu casei e relaxei.

- Não adianta reclamar, a grana é curta e não me dá direito ao luxo, de freqüentar uma academia de ginástica e ter outros gastos para ter um corpo sarado. Mãe está ouvindo? - - Não tenho saco de ficar malhando, ele não entende e nem você. Vou deixando a vida me levar.

A caminhada que eu dava era em shopping, odeio caminhada pela orla, desde a última em que eu pedalava uma bicicleta novinha, comprada no crediário, em suaves prestações. Veio um pivete e me tomou. Assustada, deixei a bicicleta, quando olhei para trás, lá ia o moleque disparado.

- Desliga o som, Júlia! Tornou a repetir, desta vez aos gritos.

O barulho da porta se fez ouvir. – Mãe, ele está chegando, beijos.

Deu alguns passos e caminhou em direção à Maria, para dar um beijo em sua face. Maria desviou. Ficou alterada com a sua presença aquela hora, sem nenhum comunicado, nenhum telefonema. Tá pensando o quê? Precisamos conversar. Trancou à porta do quarto.

O resto transformou em silencio, mas em seguida berros foram ouvidos.