Mostrando postagens com marcador Ficção Animal. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção Animal. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 9 de abril de 2008

O Sapo vai a uma pelada.

Andava sumido, ninguém achava e as informações sobre o seu paradeiro, eram todas trocadas, ou mudadas ao sabor do vento... Uns diziam que ele estava em um dos aposentos do Palacete, outros mais afoitos espalhavam que foi para o mato caçar borboletas e mariposas. Um cabrito aposentado que estava à toa na vida, sentado no meio fio, apontou berrando: Foi para aquele lado, dobrou a esquina. Um esquilo que se gloriava de saber de tudo na comunidade e da vida do palacete, garantiu que o Sapo estava vendo uma pelada no aterro.
Uma pelada no aterro!
Deus do céu! O Sapo não tem jeito, comentou a Lia Saúva, falando ao celular enquanto caminhava com uma amiga. Minha amiga soube através de Lu Marmota, amiga de muitos anos, que tem um caso de muito tempo com um assessor do alto escalão do governo, confidenciou no meio daquelas horas, sem saber muito bem do que diz, você me entende, falou bem baixinho em seu ouvido que o Sapo sem dar bola pra ninguém foi ver uma pelada. Imagine! Fiquei horrorizada. Um absurdo! Resmungou a Lia Saúva pegando o filho pelo braço, Uma vergonha!
Sapo é casado com a Loura Perereca, de papel passado, deveria se dar ao respeito. Um alto dirigente da comunidade, não deve e não pode ficar exposto deste jeito. Onde se viu? Continuava falando, daqui a pouco, na certa vai ficar envolvido pelos escândalos sexuais, igualzinhos aqueles da nação amiga, onde até uma estagiária fez aquilo, que não ouso dizer o nome, com o mandante daquela nação, que só pode ser de selvagens.
Praticam o sexo selvagem! Que Deus me proteja destas coisas. Vai ser o caos se acontecer em nossa comunidade.
O celular do Sapo estava desligado, tentava pela vigésima vez falar com o companheiro. Desistiu, mas conseguiu falar com Bode Ludovico, fazendo o interromper uma reunião muito importante que estava realizando em volta de uma mesa de botão. Como era para a comadre, atendeu. Pererequinha, não fica preocupada minha linda, você sabe que o nosso companheiro, em determinadas horas, precisa de uma folga. Foi com muita luta que conseguiu uma folga, depois de cancelar vários compromissos internacionais.
A Voz da Floresta ansiosa por notícias continua fazendo das suas contra o nosso mandato, nunca aceitaram que o povo assumisse o poder. Não aceitam que a comunidade esteja crescendo a todo vapor, abrindo mais o comércio com as nações amigas. Pererequinha como você sabe, vendemos tudo, só não vendemos a mãe.
Estamos com falta de transportes, continuou a contar, os feitos do governo, as carroças estão lotadas, devido a tanta encomenda, que chegamos ao ponto de entregar todas de bandeja.
Lindinha, você sabe mais do que ninguém que o nosso Sapo, é um trabalhador, um operário mesmo, muito dedicado ao comando da nação, ao seu povo, aos amigos dos amigos, que querem como você sabe que dispute o terceiro mandato.Não tem pra ninguém.
Vamos deixar o bando de tucanos dando bicadas a torto e a direito, quer dizer sempre bicando com a direita, criando fantasmas de golpe. Sei que você está pensando agora, que os amigos falam uma coisa aqui, outra ali, que acaba irritando o nosso comandante que para dar uma basta nesta situação ameaçou romper com o partido. Vai ter para o nosso desgosto que romper com a massa de animais famintos por mais uma eleição e uma boquinha. Pelo andar dar carruagem, o trajeto pode ser mudado.
Sem muito interesse pelo papo do Bode, pois estava preocupada com o paradeiro do Sapo, seu companheiro. Pediu para a secretária telefonar para os irmãos e nenhum deles sabia, onde estava o Sapo. O mais novo chegou a insinuar que ele foi com urgência fazer uma viagem internacional, visitar a ilhota, desejava saber mais sobre a sucessão, como o irmão do homem do charuto, estava se comportando.
Queria pegar a receita para ficar tantos anos no poder como o Comandante, se tivesse de fumar charuto, fumaria sem nenhum problema.
Horas e mais horas sem dar notícias, no entanto, por volta de dez da noite, toca à campainha, o Sapo havia esquecido a chave. Cumprimenta a rã que lhe abre a porta. Assim que chegou, interrompeu a conversa e desligou o telefone. Sem graça, mas fazendo graça.
Isto são horas? Insistiu na pergunta, por mais duas vezes, sua companheira de muitos anos. Suado muito suado, com o suor escorrendo, beijou a Perereca na testa. Sapo doido para tomar uma sauna, entrou se despindo, ia espalhando as meias, o calção, a cueca, jogando o tênis debaixo da cama, a camiseta em cima do sofá, o boné em uma cadeira, e a Perereca ia atrás recolhendo as roupas e reclamando. Onde você estava que não consegui achar, disse encarando para o companheiro, telefonei para os amigos e os amigos dos seus amigos, seus secretários e nada, ninguém sabia.
Pererequinha, você está tão linda, falou o Sapo de modo carinhoso, colocando a cabeça para o lado de fora do chuveiro. Não me chame de Pererequinha, nem de Tchutchuquinha, quero saber onde estava. Onde estava já disse. Estava lá, assistindo o desenrolar de uma partida. Fingindo de surdo, não respondia as outras perguntas. No fim, depois de um tempo e de uma tosse, contou, um pouco sem graça.
Quer saber, fui ver uma pelada no aterro, que acabei sendo convidado para entrar. A pelada estava rolando, um jogo bem disputado, como houve um acordo de ultima hora para haver prorrogação, acabei para atender os pedidos insistentes do povo que assistia e dos antigos companheiros do sindicato que não tive outra escolha senão aceitar a prorrogação, mas sugeri que poderia haver substituição, bastava olhar para as cadeiras. Sou favorável, está em minha formação democrática a dança das cadeiras. Lembra Pererequinha. quando conversávamos de bobeira, comendo moscas e olhando para a lua, em frente ao sindicato? Não vou responder. Quero saber com quem estava? Estava onde o povo está. Vim do povo e ao povo voltarei de braços dados. O povo na arquibancada, assobiava, gritava delirante, o time saiu com vitória, com o placar de três a zero, os gols foram feitos por mim, mesmo que o ultimo como alegou um tucano engravatado que nem pagou ingresso, sem ser convidado para partida, achou que eu entrava em total impedimento, no final das contas, acontece, fazer o quê?
Com tudo isto, o meu povo, aplaudiu freneticamente, que acabaram por pendurar em uma frondosa árvore uma faixa, em letras garrafais, avisando: em time que está ganhando não se mexe. Enrolou na conversa com a Pererequinha, não contou que a sua amiga estava presente ao jogo.
Em uma cadeira muito especial, como espectadora, a Mula Manca acenou sorridente e mandou beijinhos para o companheiro, aguardou o final da pelada, para comentar com um papagaio que estava ao lado, puxa eles quiseram mesmo a prorrogação.



Boris Vallejo - Nasceu em Lima, em 8 de janeiro de 1941. Muito interessante é a página do artista















sexta-feira, 4 de abril de 2008

O Sapo e as eleições.















A reunião foi marcada para às 5 horas da matina.Foram convocados em caráter de emergência os melhores amigos do Sapo: dois asnos brincalhões, cinco camelos sonolentos, três antas que acabavam de chegar da farra, duas bestas militantes e graduadas em ciências politicas, um jumento recém promovido, dois porcos, um cavalo na condição de ouvinte e representante do sindicato; uma foca fã do Sapo, que fofocava e bebericava nos bares da vida antes de fazerem piquetes na porta da Besouro e da Corcel. Seis camundongos sindicalistas que lideravam as greves nos bancos das praças. A Mula Manca, que gozava de certa intimidade com Sapo, quatro jumentos observadores, duas rãs e três pererecas para secretariar a reunião. Um grupo de pulguinhas vestidas em trajes de palhaças para alegrar o ambiente, dançando freneticamente. Todos marcharam rumo ao local do encontro, a velha sede do partido.
Antes do grande lider dos povos da terra começar a falar, toca o celular, era a Pererequinha Loura da Silva reclamando que ele não deu nenhum beijinho. Aí Nhonhoco já estou com saudades daqueles beijinhos que você dava em mim, da cabeça aos pés. Que é isso? Não é de hora de initimidades. Pára minha queridaTchuquinha estou para começar uma reunião do partido, para decidir muitos assuntos pendentes. Psiu! Pára, vamos parar! Não é hora de pensar em outras coisas, além das próximas eleições. Querida prometo que quando voltar vou cobrir de beijos e flores, disse olhando de esguelha para uma rebolativa lebre que servia café. Não estou pra ningúem, nem para o Bucho, mesmo que ele diga que quer falar com Deus. Para o camarada Huguinho diga para mandar um e-mail.
Companheiros, é chegada a horam disse estendendo a mão para um e para outro dirigente do partido e distribuindo tapinhas que não dói nas costas nos demais correlegionários. Nosso governo vai de vento em popa, mostrando a manchete da Voz da Floresta. A nação progride aos olhos vistos. Tá na cara! Só não ver quem não quer ou quem já morreu. Gostaria de lembrar que é mentira desta oposição de que beneficiamos os engravatados, os colarinhos brancos, a elite econômica e financista. Destes que gostam de ficar olhando pro céu sentados nos bancos das praças de nossa comunidade. Nosso governo é popular e democrático, voltado para os interesses das classes D, E, F,G, Combatemos a corrupção e os mosquitos.
Aqui em nossa comunidade não tem mosquito.Todos foram dizimados com o nosso programa de saneamento. Em terra de Sapo, mosquito não dá rasante, foi a lição que aprendi de meu avô. Comigo não tem mosquito! Fizemos um grande acordo para espantar um grupo minoritário radical de muriçocas, mutucas e aedes, que queriam bagunçar o meu coreto. Com medo se mandaram para o outro lado do Rio. Cheguei ameaçar que se voltassem iríamos protestar de boca fechada em uma grande passeata. Farei uso de minhas prerrogativas e usarei de um megafone para avisar em alto e bom som, caso teimam em ficar por estas bandas, usaremos sem pestanejar bombas e mais bombas de flit. Não será por falta de aviso. As arapongas me contaram que não ficou um mosquito, uma mosca para contar história. Um governo enérgico como o nosso, que não brinca em serviço. A culpa está do outro lado da margem do Rio, que sem outra coisa para fazer, nada faz.
O alcaide fica em seu trono celite por horas e horas enviando e-mails para os eleitores. Todos que recebem as mensagens, não levam a sério o que o Doutor Coelho escreve por linhas tortas. Milhões de mensagem vão direto para as lixeiras dos eleitores. No final do dia, de tanto trabalhar em prol da população, depois de olhar por horas o teto, o Dr Coelho, chama a sua amiga Ursa para brincar de roda e jogar amarelinha. Assim, passa o dia, muito feliz, achando mesmo que a sua gestão é a melhor do que qualquer uma. Nega a três por dois que não há epidemia de dengoso na comunidade, que era a mais pura invencionice de quem nada faz pelo povo sofrido e trabalhador.
O relógio batia 11 horas. A rã lembrou ao Sapo que deveria tratar do assunto sucessão que foi o motivo desta reunião de emergência. Enquanto, queimava a mufa, pensava no que falar, se sobre a rodovia ou se a ponte que caiu,na dúvida, chamou o próximo orador, o veterano sindicalista que o substituiu. Assim que cantou o seu nome, recebeu vaia do começo ao fim, pois era identificado com uma das correntes ligadas a um famoso carreirista e militante da Chapa Quente.
Como gozava da mais alta estima e consideração que chamou o Sapo pelo apelido de infância; após segurar o microfone, muito emocionado,lembrando dos tempos em que não voltam mais, agradeceu ao companheiro e advertiu de imediato no calor da hora: "Oposição pode tirar o cavalinho da chuva", repetiu mais de uma vez em cima de um palanque improvisado por caixotes e caixas de papelão, diante dos diversos animais presentes. Com uma piscadela para a Mula Manca, deu por encerrada a falação. Os gansos que faziam a segurança do Sapo se posicionaram vigilantes contra a aproximação de estranhos.
Um, dois, três queremos o Sapo outra vez, era o que se lia em várias faixas penduradas nas árvores. As sisudas abelhas operárias panfletavam o ambiente. Continuaremos a governar esta comunidade, pois não tem pra ninguém. Tucanos, Crocodilos, Bezerros, Girafas, Lacraias e Raposas, continuarão a fazer oposição e a brincar de faz de conta.





Manuel Mendive : Artista Cubano

sábado, 8 de março de 2008

O Sapo na Comunidade

Sapo acordou disposto, deu dois beijinhos em sua Perereca, que pelo horário ainda dormia um sono pesado, sem se incomodar com o barulho que o Sapo faz ao acordar. Quem já ouviu fica espantado, como foi o caso de uma rã que prestava serviço de limpeza no quarto do casal. Dizem que quando acorda, sem medo de estar feliz, corre para diante do espelho e fazer a pergunta que não quer calar: Espelho, espelho meu, neste momento sempre engasga, mas insiste com a pergunta: Se há no reino alguém do povo mais feliz do que eu? Aguarda por dois minutos e fica sempre sem a resposta do espelho, contrariado, mas feliz, dá inicio em seguida, uma série de longos espirros, vários saltos, esfrega seguidas vezes as mãos e passa a cantarolar: "O Sapo não lava o pé, não lava por que não quer" depois de tanto cantar e assobiar, é acompanhado pelo segurança para uma ligeira corrida em volta do jardim do Palacete. Telefona do celular para Mula Manca, pergunta sobre o Ministério, ela responde: Está tudo nos conformes, só então, em voz baixa, para não se ouvido, pergunta se ela ainda está com aquela energia toda, sem graça como sempre, diz sussurrando que ela está sempre elétrica. Sapo muito contente pela resposta que chega a dar um salto e pisar no pé do moleque franzino, filho de um dos seus irmãos batráquios, que vieram passar o fim de semana no Palacete e tomar banho no lago. Toda a familia unida em torno do lago, permanece feliz, que nem pinto no lixo..
O Sapo dispensou o café, atravessou o jardim pelo Ninho dos Pardais, uma passagem secreta. Ao caminhar encontra com o Bode Ludovico que lhe faz uma pergunta: Quanto é a metade de dois mais dois? Faz outra pergunta Bode, esta tá muito fácil que nem vou responder, Ludovico coça a barba, pigarreia e lança a pergunta seguinte. Sapo querido, você é meu irmão, só não responde se não quiser. "O rato roeu a roupa do rei de Roma e o rei de raiva roeu o rato". Quantos R têm nisto?
Querido bode, disse afagando a barbicha do Bode, nem vou lhe responder, tenho mais o que fazer estou com a agenda cheia, estão programados diversos encontros e desencontros para o dia de hoje. Vou inaugurar várias bicas no Morro dos Cabritos. Quero estar onde o povo está. Continuarei a expandir os buracos negros e valas. Para os animais idosos, cansados de guerra, oferecerei vagas e mais vagas cativas para trabalharem. Todos terão oportunidades em meu governo popular. Lembro muito bem de meus tempos de jovem sindicalista, onde na porta do Boteco do Vavá, em mesa farta, dito depois de várias goladas pelos camaradas dinossauros: "façam amor e não a guerra" que agora repito para os demais moradores desta comunidade que foram contempladas com o melhor plano de governo de todos os tempos. O tráfico na comunidade está liberado, o acesso as modernas carroças farão parte do nosso plano, qualquer morador poderá transitar pela comunidade sem medo de pagar mico, ou pedágio. Tudo será gratuito. Uma carroça da imprensa, estacionou junto ao meio-fio, na frente o Leão Marinho vinha acompanhado de dezenas de focas, prontas para fofocas, começaram a fotografar o evento. Olha o passarinho! Olha o passarinho!
Comigo, não tem mosquito, eles sabem que em governo de Sapo não dão rasantes. As abelhas operárias, ofereceremos pétalas de rosa, terão sem sombra de dúvidas um doce lar, perfumado sem o odor de esgoto estagnado que toma os ares das comunidades. De hoje em diante, quero avisar a quem estiver interessado e aos navegantes, de que todas as balas perdidas serão achadas e distribuídas para divertimento dos menores, que muitas vezes, nem bala para comer tem. Avisem ao formigueiro que vem aí tamanduá. Vamos acabar com esta trilha de animais que sobem a ladeira noite e dia em busca de farinha branca.
O caminho em que o Sapo ia passear e passar, não passaria boi, nem a boiada. Tudo foi interditado há mais de uma semana, em nome da segurança do Sapo, logo sendo o maior representante do povo da Floresta, todos animais se sentiriam com segurança para dar e vender. A pomba da paz permanecerá em seu pombal a serviço da comunidade, serão eternas vigilantes. O Sapo por instantes interrompe o discurso para olhar pelo buraco do muro, o que estava acontecendo do outro lado.
Do alto do morro, descendo a ladeira preso pela gola, Pituca, o gato de botas, meliante perigoso que estava em local desconhecido. Procurado por toda a cachorrada. Localizado após denúncia anônima. Pituca, antigo líder comunitário que deixou-se influenciar pela má companhia dos ratos e urubus, que de uns tempos para cá, passou a roubar ricos e pobres. Batalhador desde cedo, quando mal freqüentava a creche da comunidade para trabalhar e sustentar a grande familia de gatos famintos que moravam ao relento. Sem sardinha e leite, o desespero de Pituca era cada vez maior. Depois de crescido e pelas companhias, ao conhecer uma gataça em uma balada, sua vida mudou para melhor. Sua história foi contada para o Sapo por um desconhecido, muito sensibilizado, com lágrimas a percorrer a face, sua pele calejada e enrrugada desde os tempos em que foi sindicalista. Num coaxar só, abafado pelos cascos dos cavalos na platéia, do alto de um caixote, aos quatro ventos, após ouvir um poema recitado pela Borboletinha, acabou por terminar a visita, prometendo fazer mais pela comunidade, quando olhou para o alto, além do Ninho de Urubu, avistou um Ninho de Tucanos, do bico grande e boca aberta, doidos para tirarem proveito da solenidade. No entanto, do alto do lado esquerdo, em cima de uma laje, uma hiena ria muito da cena, chegava a dar cambalhotas.

*Imagem. E. Kimombo

segunda-feira, 3 de março de 2008

Vida de Sapo

Lula Lelé, um ex-sindicalista amigo do Sapo dos tempos em que brincavam muito de pular carniça, mais o filho caçula de Vavá, o Urubu, velho inspetor do grupo escolar localizado lá na periferia dos Jardins das Borboletas. Lula Lelé amigo do Sapo, gostava de contar para os coleguinhas que a primeira escola foi um Jardim de Infância em uma pequena casa localizada no alto do morro toda engraçada de cor amarela, feita com pedaços de madeira sem muita mesa ou cadeira, quadros-negros despencando, faltava sempre giz e luz. Os banheiros entupidos, bebedouros sem água mineral e cantina sem bala puxa-puxa, pipocas e algodão doce. Doces de bananas nanicas era o preferido de uma grande parte da galera, mas estavam reservadas para os filhotes dos Guaribas, moradores sem teto, que viviam em galhos na parte sul do Jardim das Borboletas e que passavam grande parte do dia sem nenhum alimento. Iam para a escola para comer e não para estudar.

Viviam felizes, o Sapo, Lula Lelé e Bicudo, o trio bagunceiro da escola. O sapo gostava de dar susto nos coleguinhas, escondendo-se atrás das portas e pulando no pescoço do primeiro que passasse pela porta da sala. Lula Lelé sempre arrumava um jeito para colocar um dos pés na frente das franguinhas para levarem um tombo; Bicudo gostava de jogar bolinha de papel na cabeça da tia Cotia do primeiro turno e no segundo, na Abelhinha, a tia que trabalhava na biblioteca. Bicudo ria de tremer o bico, desta maneira dava para ver os primeiros dentes de leite do filho caçula de Vavá.O mais levado deles, o que sempre levava advertências da Tia Mutuca e cascudos da mãe, durante a semana.

O Sapo sempre matava aula, quando a professora fazia a chamada, uma rã imitando a voz do Sapo, dava a presença para ele. Presente, fessora! Disfarçava a rã, que era na verdade a sua primeira namorada. Fazia tudo por ele.

Quando acontecia isto, a professora sabia que Sapo havia pulado a cerca e estaria jogando bola, vestido com a camisa listrada em preto e branco. Morria de amores pelo gavião, chegava a ser fiel. Ele organizava o time, dono da bola e atacante caneleiro, um dos artilheiros do campeonato ao lado do Animal, o artilheiro da Colina. Sapo jogava muita bola, era o jogador que qualquer time gostaria de ter no elenco. Sua presença em campo chamava a atenção de olheiros e dos técnicos adversários, inclusive pela voz rouca em que dizia: “Um por todos, todos por um”.

Dali do florido campinho do Jardim, deu um salto para os campos de várzea. Ganhou fama e estátua em homenagem prestada pelo Sapo Gordo. Batia um bolão Só esteve uma vez no banco de reservas, quando o técnico Leão, para impor disciplina no elenco, devido a grande agitação liderada pelo Sapo e seus cupinchas que reclamavam dos salários em atraso. Nesta ocasião morava em Brejo Seco e estava de olho na Perereca. Aos sábados e domingos ia namorar no portão da casa da Perereca, de tão apaixonado pela Perereca que chegava a babar e fazer serenata para a namorada antes de tocar o sino da igreja para anunciar que eram dez horas da noite. Dona Rã Silva, ranzinza como era e Sapão Silva do alto de sua autoridade paterna, apenas permitiam o namoro na porta de casa e até às dez horas da noite. De longe os pais da noiva ficavam corujando o casal. Quando um dos dois exageravam nas carícias os pais davam de espirrar e tossir.

Leão Marinho velho escriba que naquela época era correspondente em Brejo Seco, através de seu jornalismo investigativo, apurou que o Sapo ficou fulo da vida, que ameaçou a abandonar a carreira de jogador para ingressar no mundo da militância sindical. Houve desmentidos. Foi um bate boca muito grande. Dizem que um dia, de um mês qualquer depois de terminar a peleja, correriam direto para o Pé de Jaca para beber suco e muito caldo de cana, mais caldo do que suco. Em conversa de mesa de bar com Lula Lelé fez uma aposta com o parceiro cismou que queria ser presidente da comunidade.

Lula Lelé na verdade, gostava mais de ler do que o Sapo, que apenas juntava álbuns e figurinhas para jogar bafo-bafo. Na hora do recreio, que hora bem feliz, o mais velho da turma gostava de jogar amarelinha. Quando não via o inspetor, ou quando este estava cochilando, aproveitava para junto com Bicudo, pichar paredes e muros.

O tempo foi passando, décadas e o namoro com a Perereca começou a ficar sério demais, que houve até casamento. Uma festa de arromba realizada assim, que o Sapo tomou posse no Sindicato dos Trabalhadores, como presidente da entidade. Anos depois, eleito presidente da comunidade. Rato Malhado, duas horas da tarde, a partir de hoje estarei junto ao Polvo, a Lula Lelé, Ostras e Baleias. Um insistente tucano de bico grande e torto de tanto usar cachimbo, sobrevoava no céu em altos vôos em direção à rampa, era seguido por urubus, gaviões de penacho, mutucas iradas. Uma marcha de pingüins seguia pela avenida principal da Comunidade do Rato Malhado levando cartazes em apoio ao Sapo.

* Imagem em exposição: Edward Saidi Tingatinga -Artista Tanzaniano.Fundador da Escola de Arte Folclórica da Tanzânia. Morreu aos 35 anos. (1937-1972)

domingo, 24 de fevereiro de 2008

O Sapo, o amigo do Polvo.

O Sapo deu um salto bem rápido da cama, assim que escutou um estranho barulho do lado de fora do Palacete. Era um burburinho, de idas e vindas constantes do outro lado da rua. Com pressa não ligou para a lagartixa que costumava fazer carinho nas horas de aflição, de tensão, deu apenas uma olhadela de soslaio no rabo da dita cuja, mas foi em frente. Não poderia parar, tinha de matar a curiosidade. Ainda era de madrugada, nem o galo branco do vizinho, nem a vizinha com voz de matraca tinham acordado para começar a perturbar seus ouvidos. Abriu uma das janelas, ouviu um chirriar de um casal de grilos namorando agarradinho, não deu importância, não ficou grilado com aquela cena de casal apaixonado. O que andava colocando minhocas em sua cachola era o movimento do outro lado da rua, o estranho som que ainda ouvia. Não era de festa, esta certeza ele tinha. De seu imenso quarto, bem devagar, caminhou até aos aposentos em que colocava todas as quinquilharias, bugigangas e tralhas recebidas dos turistas e políticos que visitavam o Palacete em busca de uma boquinha e outras facilidades. Ao procurar jogou uma por uma no chão, irritado com a bagunça deixada pelos filhotes, até encontrar no fundo do baú, um par de binóculos que ganhou de Bacuri , um antigo cabo eleitoral dos tempos em que sonhava em ser apenas presidente do sindicato da categoria, lá pelas bandas do ABCD. Nem gostava de lembrar destes momentos pois, vivia num miserê danado, pedia fiado na vendinha do compadre Parangolé, em que mandava pendurar na conta, para pagar só Deus sabe quando. Vivivia para cima e para baixo em companhia do Polvo, panfletando nas portas das fábricas. Foi-se o tempo em que era amigo do Polvo, era solidário a ele, mas de uns tempos para cá, ficou muito distante do companheiro e se bobear nem conhece mais. Uma conhecida dos dois, desde dos tempos em que foi eleita Miss Operária, a Abelha Zazá, abelhuda como era, reparou que um dia destes, um tremendo sol, um sol forte, vinha o Sapo alegremente assobiando, quando na mesma direção, cambaleando, por ter exagerado no goró, o velho camarada Polvo passou pelo grande líder, abriu os braços com a intenção de abraçar o velho companheiro de batalha, eis que o Sapo fingiu que não viu, olhava insistentemente para o alto, para aviões e urubus. E seguiu o seu caminho segundo Zazá, em direção à rampa.
Os binóculos estavam bastante empoeirados, limpou as lentes com a ponta da camiseta que vestia e pendurou no pescoço. A limpeza ficava sempre aos cuidados da Perereca que dispunha de uma penca de serviçais para todo tipo de serviço doméstico, mas naquele mês, todos entraram de férias coletivas. O jumento que ficou de plantão, pediu dispensa no dia de hoje para visitar a tia que estava acamada e vivia só em um barracão de zinco no alto do Morro do Pinto. Logo hoje e não há nenhum serviçal disponível, reclamou. Deste jeito não posso chamar isto aqui de paraíso, tanto que lutei contra moinhos e ninhos de tucano, contra raposas felpudas e amigos ursos, com cobras e lagartos. Foi para ter vida boa, sombra e água fresca. Agora me aparece um estranho barulho, um agito, tudo para me deixar encucado, de cabelos em pé, de saco cheio.
Como a Perereca dormia a sono solto, que o Sapo desistiu de acordar a companheira, deu a volta por cima e deixou a companheira roncar e sonhar. Quando a Pererequinha estava em sua posição preferida, o Sapo dizia que sonhava com ele. Também não disse em que posição ela ficava.
Olhando por uma fresta, mais para o lado direito, identificou que do outro lado da rua, ficava o Ninho do Urubu e mais a direita o Ninho do Bicudo, pouso obrigatório dos Tucanos. Ali, morava do alto daquela árvore, o perigo. Faltava um quarto de hora para amanhecer, colocou o binóculos e pode à distância enxergar com os olhos que a terra há de comer: dois papagaios, seis periquitinhos verdes. Prostrados em um sofá, lendo jornais, duas raposas, um filhote de urubu, trajando camiseta de um time de futebol, de três a quatro pardais em uma animada roda.
Ao olhar aquela cena, começou a suar frio, a tremer uma das pernas. O desespero tomou conta do Sapo e nestas ocasiões começa a pular, a dar cambalhotas. Só fica mais tranqüilo depois de beijar a Perereca, que assustada com o agito do Sapo, fica ao lado dele. Perereriquinha pegou de imediato o celular e telefonou para o amigo Bode Ludovico. Na primeira tentativa deu ocupado. O Sapo aos gritos mandou chamar Mano Véio, a araponga de confiança do Sapo, deixou uma mensagem dizendo que saiu para fazer uns servicinhos e voltava logo.
A Mula Manca ex-secretária do Partido dos Animais Enjaulados, compareceu logo após um longo sumiço, era acompanhada por Carneiro Manso, antigo líder do bloco da situação. Estavam prontos para combater os inimigos do governo popular e democrático do Sapo. Os inimigos dos Polvos querem derrubar o nosso governo para implantar um regime de Bicudos, de plumagem rica e variada. Cuidado com a imprensa golpista do Cavalo Marinho, alertou a fuinha que acabava de chegar para engrossar a fileira de resitência dentro do Palacete. Aquela turma sempre conspirando, inventando coisas para nos derrubar, disse uma Cabritinha sem berrar. O Polvo não é bobo, continuaremos aqui de novo. Era o que o Sapo queria ouvir, com todos os problemas, o Polvo nas pesquisas estava ao seu lado. Mas afinal de que lado está o Sapo, perguntou uma hiena, logo após soltar longa e gostosa gargalhada.







Joseph Masila - Artista Queniano

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Os Bordejos do Sapo.

Andava algum tempo sumido e as informações sobre o seu paradeiro, eram as mais desencontradas, ou quando muito iam ao sabor do vento. Só os mais íntimos, desconfiavam onde o Sapo poderia estar. O certo é que ninguém sabe, ninguém viu. Para a companheira Perereca, ainda sonolenta, cochichou ao pé do ouvido esquerdo, de que iria apenas dar uns bordejos pelas cercanias do Palacete e sob efeito de múltiplos disfarces iria escutar a voz rouca dos animais da comunidade. Na verdade queria por que queria saber como ia o seu ibope, se ainda estava prestigiado no coração selvagem dos animais. Tinha de preparar o terreno, visando o seu futuro, em mais um mandato popular, poderia contar pensou com os seus botões com a prestimosa ajuda do amigo Polvo e seus camaradas para afastar algum tucano que pintasse na área com a intenção de disputar as eleições. Um dos tucanos, o Príncipe dos tucanos, diante de uma bola de cristal, anunciou para o mundo, que um deles pode voltar. Desta venceremos de goleada. O Sapo irritado, muito irritado com que ouviu, mandou um recado por e-mail para o tal Príncipe que poderia sem favor algum tirar o cavalinho da chuva e voar em outra freguesia. Agora que cheguei ao paraíso com os cartões de crédito, não há de ser um aventureiro qualquer que vai me tirar daqui, e daqui não saio e ninguém me tira. Se algum pato abrisse o bico, poderia quebrar o galho dele e oferecer um cargo de fiscal da natureza. Esta eleição está no papo.
Em cada esquina que passava, escutava os melhores comentários sobre o seu governo popular e democrático. Apenas um, um único coro de gansos descontentes e nada se via além disso, um grupelho de desordeiros, protestando contra as mamatas do governo, contra o uso abusivo de cartões de crédito. Quando passou por eles, parou por instantes, balançou a pança de tanto rir, eram velhos conhecidos que gostavam de tomar sol no lago, de papo pro ar. Eu que ainda pensava em afogar o ganso, mas como democrata e popular tenho de afugentar estas idéias, o meu governo vai de vento em proa.
As focas desesperadas ficaram concentradas diante do portão principal do Palacete em busca de fofocas para o programa da tarde na televisão, enquanto aguardavam, travavam uma luta na disputa do melhor lugar e da noticia recém saída do forno, quentinha que o porta-voz costumava passar para os amigos e os amigos dos amigos. Queriam saber por onde andava o Sapo.
Geléia era a foca com mais tempo de serviço jornalistico. Estava para se aposentar, cheia de malandragem, conhecedora dos meandros do Palacete, obteve com o seu amigo as informações necessárias. Foram colegas no jornal e namorados na juventude, militantes do movimento secundarista. Ficaram juntos na mesma cela, na ocasião em que foram presos por atividades de protesto e xingamentos no meio da praça principal da comunidade. Um língua de tamanduá deu com a língua nos dentes e entregou os animais organizados. Vários entraram em cana, levaram bordoadas e chicotadas, além das mordidas no calcanhar. Uma imensa nuvem negra ficou instalada na comunidade do Rato Malhado e adjacências, de total escuridão. Os animais sumiam sem deixar rastros.
O Sapo continuava o seu passeio, agora diário, misturando-se as grandes manadas para escutar melhor as diversas opiniões sobre o seu governo. Amanhã estaria de volta as ruas, de novo para ouvir a voz do povo da floresta. Os animais sorriam de gargalhar, todos em festa, mas sem direito ao uso dos cartões.



Imagem. Chéri Samba- Pintor Congolês. Nasceu em 1956 no Baixo Zaire.

sábado, 9 de fevereiro de 2008

A Perereca vai às compras.

A Perereca estava muito assanhada, uns diziam que ela ficou deslumbrada desde que chegou de mala e cuia ao Palacete, carregada nos braços no dia da posse do companheiro. Um belo dia, lá pelas 2 da tarde, o Sapo acordou muito contente, assobiando sem parar. De pé ante pé, bem devagar sacou da carteira um cartão de crédito. Antes de entregar o presente para a sua amada Perereca, beijou e babou o cartão seguidas vezes, até cansar, como demonstração de felicidade por ter cartão de crédito. De hoje em diante tudo vai ser diferente querida Pererequinha você poderá usar um cartão de crédito sem limites e poderá comprar o que der na telha. Aliás, apenas teria o céu como limite, segundo informações da assessoria de imprensa. Como por força da natureza ela não voava preferia então, gastar tudo na terra, no ar e no mar, ou na beira da lagoa, passeando de pedalinho com os netinhos.
Perereca vai às compras hoje pela manhã foi o aviso, deixado grudado na porta da geladeira pelo Sapo, para o chefe da segurança Der Hund, o Alemão. Um cão camarada e de confiança do Sapo, que se conheceram na porta do sindicato e que discutiam por horas e horas a fio como poderiam chegar ao paraíso; na época Alemão, depois de tantos bicos , arrumou uma bocada como vigia noturno do sindicato, tudo pelo prestigio do Sapo que era alto dirigente sindical.
No aviso escrito por linhas tortas, alertava ao amigo para ficar de orelha em pé, de butuca ligada para aproximação de estranhos querendo olhar para a Perereca, nada de conversa, bota pra correr, pode ser um agente a serviço da imprensa oposicionista Voz da Floresta de propriedade do Leão Marinho.Tome providências! Mande o importuno para as cucuias, para os quintos do inferno, se é que me entende, deste jeito foi finalizado o aviso.

A Perereca estava com a vida que pediu a Deus, pela manhã malhava na melhor academia da comunidade, depois corria em volta da lagoa, com a amiga Capivara. As duas iam direto para a Cachoeira do Pajé, ficavam se esbaldando, nadando de lado, de costas e de frente. Davam saltos, piruetas, mergulhos, até caldo davam uma na outra. De onde estava, em cima da mesa, gritou para o pingüim trazer bebidas, para encher a bandeja com comida.Queria sair dali, empanturrada A capivara de regime preferiu uma comida mais light, apenas capim verde e bebida, muita bebida.O sol estava de lascar, assim, aproveitou e ficou bronzeada, tudo para deixar uma marquinha que o Sapo apreciava , lambia os beiços e ria quando via.
Ficaram até o fim da tarde, quando saíram em disparada rumo ao shopping. Primeira loja que viu e entrou era uma joalheria. Viu, gostou, levou quase a loja toda, comprou jóias raras e finas, balangandãs de prata para distribuir para os amigos de fé, irmãos e camaradas.Na segunda, viu e não entrou, foi na seguinte, experimentou duzentos vestidos, depois pagou à vista no cartão, sem desconto. A Capivara adorou uma sandália três dedos que estava na vitrina, deu de presente as que estavam em estoque, cerca de 20 pares, para a sua velha amiga. Encomendou 365 biquínis para usar durante o ano. Para os filhos das vizinhas da comunidade do Rato Malhado, sua antiga residência, levou os mais modernos que estavam expostos no interior da loja, sem graça perguntou, a gracinha do vendedor, se aceitava cartão. O camaleão que atendia, disse que aceitava. Pagou e mandou entregar na casa da mãe da Joana, uma de suas amigas do tempo em que era operária fabril.
Por volta das 10 horas, em casa, depois de se lavar com sais importados trocou de roupa, vestiu um curto biquíni de bolinhas amarelinhas para mostrar para o Sapo, a famosa marquinha, que leva o Sapo à loucura. De tanto chamar, de se esgoelar, ficou sabendo após ler o bilhete grudado na porta do armário. Perereca querida: "São os ossos do oficio tenho de partir em viagem a terra do homem do charuto, irei passear na ilha, mas não diga que é turismo, arrume uma desculpa esfarrapada; comprarei charutos, caixas e mais caixas de rum e mojito, tudo pago com o nosso cartão" Beijo nesta Perereca que eu adoro.






















Ukeio: Moçambique:

sábado, 26 de janeiro de 2008

As Obras do Coelho.















“Onde está o dinheiro? O gato comeu, o gato comeu. E ninguém viu. O gato fugiu, o gato fugiu. O seu paradeiro está no estrangeiro. Onde está o dinheiro? Eu vou procurar. E hei de encontrar”.

Será que está com os ratos? Olha, lembra como ficou besta aquela ratazana, depois que o rato seu companheiro enriqueceu de patacas, queijos e vitaminas, comentou a arara fofoqueira com a sua vizinha de galho. Sumiram e ninguém mais viu. Um Cavalo Marinho tarimbado repórter policial, depois de incansável busca nos arquivos do jornal, que não deu em nada, achou melhor espalhar que foram para o Paraíso, carregando tudo que ganharam, desde patacas e dólares guardados na cueca aos tostões, fizeram a maior limpa.

Amiga precisa ver como ficou aquele gato de botas, ficou muito endinheirado, com bolsas e sacolas cheias de tostões e patacas. Vivia encostado nos postes, cantando as gatinhas, mostrando as garras para quem passasse, não tinha patacas nem para aparar o bigode. Nem banho tomava. Sempre em companhia de uns gatos pingados, dois deles aposentados, os outros três ainda trabalhavam como gatos das centrais telefônicas. Morava pra lá do Buraco do Boi, em um cantinho cedido de favor pelo Angorá, antigo dirigente da associação de moradores; agora aparece sorrindo em companhia de um gatuno todo engravatado, distribui tostões para os jumentos desempregados, biscates para alguma franguinhas e trabalho temporário para os dromedários. Inaugurou templos para os pastores trabalharem. Fazia de tudo para obter mais votos. Nos becos e esquinas, bem-te-vis e corujas espalhavam que o gato está deste jeito por fazer muita trapaça, assim subiu rápido chegando ao telhado muito depressa. Era o pulo do gato, comentava ciscando na fila duas galinhas ao fazer hora para ir ao dentista.

A Madame Gata, agora com os pelos pintados anda de um lado para o outro, só de charrete de último tipo, conversível e ar condicionado. Na parte da manhã até as 5 horas faz compras em companhia de uma gata selvagem, uma antiga amiga de esquina. Durante a noite por volta das 18 horas assiste em companhia de um gatinho que achou na rua, a novela A Gata Comeu. Disse uma foca que esteve aqui para fofocar, que elas são amigas íntimas do Sapo e da Perereca. Nas sextas-feiras são convidadas para comer caviar no palácio, saem com os beiços lambuzados. .

Coelho um dos representantes do partido do povo animal no parlamento compareceu e comunicou ao líder genial dos povos, que acabara de espinafrar um tucano banguela, cheio de pose que fazia intrigas palacianas na comunidade dos cachorros sem dono. Não podemos permitir esta desordem.

O congresso não é a casa da mãe Joana, e não é mesmo, pois ela mora com a sua filha Joaninha, onde o vento faz a curva e esquina com o raio que o parta, sem número. Desde que Joana foi morar no Morro do Pinto, com Zangão, que está sumida. Um lugar cheio de mato, valas negras, sem água benta, e mineral. Na ultima bica que foi inaugurada pelo Coelho, apenas caia algumas gotas que não dava para encher nem uma bacia, quanto mais um tanque. Vida dura de Joana e sua filha.

Coelho preocupado com a falta de água prometeu se valer do cargo para conseguir desviar litros e mais litros do Córrego Seco que passa algumas léguas de distância da estrada e que não serve para ninguém de tão poluído que está, todo coberto por uma espuma branca, além de muito mau cheiro. Lacraia assessor imediato de Coelho vai fazer o cadastramento de todos interessados em beber água. Distribuirá para seus eleitores e a comunidade, mangueiras, latas e bacias. Construiremos poços e poças que beneficiem a comunidade. A água será encanada diretamente da Lua. Não haverá necessidade de enfrentar fila para pegar água na bica.

Meus eleitores pensam que é difícil de fazer estão enganados, o povo animal desta comunidade saberá reconhecer o esforço, se preciso até ligações clandestinas irei fazer. Vai jorrar água sem parar. Daremos empregos para as lavadeiras, as libélulas militantes sindicalizadas. Diversos tatus-bolas, cobras - de- duas – cabeças, rola-bosta, lagartos serão beneficiados com a criação de um Piscinão de Lama.

Com as obras que tenho feito em beneficio da comunidade, será necessária a minha reeleição, não poderemos deixar as milhares de obras inacabadas e as outras tantas que nem foram iniciadas. Contratarei tatuzões para escavarem os buracos negros desta cidade. Colocarei muito em breve luz no fim do túnel. Depois algum eleitor desavisado quer perguntar onde foi parar o dinheiro. Para estes não responderei, e sim aos meus fiéis eleitores, digo: Que não irei renunciar, salvo se alguém provar que houve desvio de verba. Um jumento sem muito saber do que se tratava relinchava sem controle e batia os cascos sem parar. Parecia ser um solitário eleitor do Coelho, uma vez que era apenas ele, quem ouvia o coelho discursar.

Chichorro: Roberto Chichorro, nasceu em Lourenço Marques em Moçambique no ano de 1941.

sábado, 12 de janeiro de 2008

Zebedeu, um cachorro vira-lata.

















Zebedeu um cachorro vira-latas, biscateiro e morador de rua, há muito tempo que vivia com uma pulga atrás da orelha, que o deixava impaciente. Coçava aqui e ali, mas não adiantava, a danada da pulga continuava no mesmo lugar, em sua orelha esquerda, parecia que estava grudada. Zebedeu gostava de perambular pelas ruas em torno da praça onde morava, cumprimentava a todos, balançando o rabo e com um largo sorriso. Por pura implicância quando encontrava com Negro Angorá na esquina, além de mostrar os dentes, botava ele para correr. Negro Angorá muito irritado corria para cima do muro e lá miava bem alto, protestando contra a perseguição.

Negro Angorá por ser um líder nato enfrentava mesmo com alguma desvantagem os desmandos de Zebedeu, se não totalmente de frente, pelo menos em cima do muro. Liberdade para os gatos! Era o aviso afixado no alto do poste. Quando Zebedeu pintava no pedaço a turma ficava em polvorosa, os gatos pingados e ao mesmo tempo os ratos, fugiam e se escondiam. Deixavam à poeira baixar e aos poucos voltavam um a um para os seus lugares.

Quando acontecia este encontro era um tremendo bate boca, uma briga de cão e gato, que havia necessidade dos vizinhos separarem, de meterem a colher. Depois deste ligeiro entrevero, cada um tomou o rumo de casa. Negro Angorá preferiu ficar em cima do muro e Zebedeu voltou para a praça, perto de um banco e próximo da paróquia. Cumprimentou o pároco e o sineiro. Ficou um tempo pela calçada e não arrumou nada. Os humanos viviam em um misere danado sem tostões, nem patacas, estavam muitos deles na lona. Na volta conferiu o resultado do jogo no poste, de vez em quando fazia uma fezinha, perdia mais do que ganhava nas apostas.

Era uma vida de cão que levava, com muita pulga para lhe atazanar a vida. Comia um osso duro de roer, aliás, o seu único osso. Sempre de orelha em pé para o movimento ao redor da praça. O preço da liberdade é a eterna vigilância, assim ficava por horas e horas. De onde estava avistou Marquês um pombo muito empombado, que liderava uma tribo de rolinhas, pardais e cambaxirras nos arredores da praça. As rolinhas formavam um trio para cantar na praça e arrumar um troco. Os outros se viravam como podiam. Os seus antigos companheiros de jornadas arrumavam uns trocados. Os pardais arrecadavam mais com as multas, do que outros ganhos. Os demais membros do grupo vendiam bilhetes de loteria e mercadorias nas esquinas que conseguiam em viagens as outras terras.

Marquês morava de favor na torre da igreja, desde que foi expulso do pombal foi viver na rua. Sua antiga companheira, uma pombinha branca e bem infeliz, mãe de seus filhos, achou que o momento era este, com os filhotes crescidos e o companheiro mais na rua do que em casa, decidiu que em uma primeira manifestação de rua pela paz, sairia e não voltaria mais. Voltou atrás quem teria de sair, era o Marquês.

Ora, Pombas! Estou cansada desta vida de abandonada a própria sorte. Voou e pensou e repensou que a vida deste modo seria realizada as duras penas. Não, não posso abandonar os filhotes, mesmo crescidos, afinal, mãe é mãe e pai na verdade existem muitos. Os filhos ficaram abandonados, a mãe que cuidasse e se virasse. Dele não veriam nenhum tostão quanto mais patacas e milhos. Morou sozinha por um bom tempo, até que conheceu em uma balada, um franguinho todo engravatado, que acabou se encantando e passaram a morar juntos em um galinheiro comunitário..

Uma vez Marquês ficou enrabichado por uma galinha d`angola toda vistosa que conheceu em um pagode no alto do Morro do Guariba na Estrada do Patola. Troca de olhares e de bicadas. Fizeram juras de amor. Um amor que para quem visse jurava que seria eterno. Muito apaixonado e empolgado prometeu mundos e fundos para a sua nova companheira. Se fosse preciso ele daria o céu e a terra para ela. Em pouco tempo foram morar juntos próximos da casa dos pais dela, perto do Morro Cara de Cão. Meses depois do casamento Marquês, começou a ficar encalacrado, a despesa aumentou, pois ainda tinha os filhotes do casamento anterior de sua nova companheira. Titi começou a perceber que tudo não passou de uma ilusão. Marques seu novo companheiro não tinha nem onde cair morto. Sem o leite e o milho dos filhotes as brigas e discussões por qualquer coisa, aumentavam tornando a vida do casal insuportável.

No dia, na ocasião do primeiro encontro, contou uma vez para Zebedeu enquanto bebericava no Bar da Tia Coruja; durante a noite uma noite escura como breu, em que chovia muito houve um tremendo tiroteio entre duas facções rivais, pipocavam milhos e balas para tudo que era direção, que acabou atingindo uma cabritinha que tentava subir o morro, ao ir para casa. A maior confusão, havia quebrado as luminárias dos postes e o morro estava sem luz, inclusive no fim do túnel que ligava o morro ao esconderijo dos tatus e fuinhas, soldados de Teteu e Cascudo que nas horas vagam tocavam na bateria da escola de samba.

Na manhã seguinte a imprensa noticiara com maior destaque, em matéria assinada pelo temido repórter Leão Marinho que o grupo de Tetéu e Cascudo dispararam diversas balas e bombons contra o bando de invasores liderados por Pitu e Cabra Cega. O grupo de Tetéu reagiu de modo violento, atirando inicialmente contra o lugar que estava rolando a festa. Latidos de um grupo de cães policiais foram ouvidos. Ficaram assustados! No entanto, o tiroteio foi intensificado. Foi uma noite de terror. Morcegos desesperados não sabiam para que lado voar, estavam totalmente perdidos. Pelo rádio da polícia foi pedido auxilio de joaninhas. Formiguinhas subindo pelas paredes davam o sinal que a coisa ali estava ficando preta.

Zebedeu continuava na praça e com a corda no pescoço, ganhava muito pouco. Sempre de butucas ligadas, começou a estranhar a presença de mais e mais estranhos querendo morar e trabalhar na praça. Conheceu por acasoTizu, um papagaio aposentado que vivia de pires na mão, sem lugar para morar, passava o dia inteiro taramelando: Me dá um vintém, Me dá um vintém, Me dá um vintém. Um porco que acabara de chegar, começou a ficar irritado com o papagaio. Queria a qualquer custo, expulsar o papagaio do banco da praça. Tizu não ligava, continuava pedindo, pois achava que a praça era de todos os animais. Zebedeu de longe, para não perder o hábito começou a latir, se não foi para espantar as pulgas, foi de boas vindas para os novos amigos pedintes. A praça em pouco tempo estava apinhada de animais e humanos. Salve-se quem puder.










Elisha Ongere: Pintor nascido no Quênia.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

O Dia de Folga de Batoré, o Jacaré















Batoré, o Jacaré, aproveitou o fim de semana que estava de folga do batente para visitar os amigos que moram à beira da Lagoa das Garças. Quase não aproveitava o dia de folga, há muito tempo não desfrutava os momentos de lazer, pois sempre a sua companheira arrumava uns servicinhos para fazer em casa, mudar ou remendar uma cerca, varrer o quintal, pegar na enxada ou trocar uma lâmpada. No entanto jogar conversa fora, era mesmo o que mais gostava. Levava papos e mais papos, no final do dia, de tanto conversar ficava de papo amarelo de tão cansado. Dormia pregado na rede, com os olhos abertos.

Dos numerosos filhotes – havia no momento cinco, dois machos e três fêmeas que ficavam sob os cuidados de Bela, a sua última companheira – que bagunçavam a casa, espalhando brinquedos, moluscos e farelos. O dia inteiro varrendo e educando os filhotes. Um trabalho dobrado. Pior que nenhum deles, obedecia. É falar por um ouvido e sair pelo outro. Pingo o mais levado, adorava mergulhar no rio cheio de piranhas, nadar de costas e surfar. Depois ia tomar banho de sol. Mindinho o mais novo engatinhava mexendo em tudo de sua casa e das casas dos vizinhos.

Batoré neste dia levantou cedo, mal clareou o dia arrumou o farnel em uma marmita, a prancha, colocou os óculos escuros. Morava no distante lugarejo de Caminhos do Brejal. Há dez quadras dali, morava o amigo Coatá, antigo sindicalista, habitante de um tronco abandonado à beira da Estrada do Patola. Haviam combinado, se a folga coincidisse, os dois reencontrariam com os antigos companheiros de aventura e de labuta. Chegou então este dia. Coatá estava muito ligado e entusiasmado com esta folga. Levantou muito cedo, pegou o radinho de pilha, pencas de banana e óleo de bronzear, colocou tudo dentro de uma mochila. Deu beijos na macaca sua mãe e nos filhos, bateu a porta, estava em cima da hora. Batoré e Coatá marcaram um encontro no boteco do Javali, na verdade uma birosca bem na curva da estrada da Cascavel, dali depois de dar uns goles em uma birita, partiram cantando rumo ao ponto final da carroça.

A carroça passava de 40 em 40 minutos, quando aparecia no ponto, era uma enorme confusão, muitos queriam furar a fila que estava do tamanho de um bonde. Uma pisada de elefante tirou do sério uma tanajura, que no momento estava aos beijos e abraços com o coelho. O coelho pegou a cartola no bolso viu que a coisa poderia pintar alguma sujeira, aproveitou um momento de distração que a tanajura chorava de dor, sumiu. Que aos gritos de dor e de xingamento recheadas de impropérios eram dirigidas ao enorme e obeso paquiderme. Do alto olhou com desdém. Fechou uma tromba. - Vai te catar! Vá procurar a sua turma! Vá ver se estou lá na esquina. O elefante muito suado, continuou na fila, desta vez, trombando com um veadinho que aguardava o momento de subir na carroça. O veadinho irritado com aquela situação chamou aos gritos pelo vigilante Lobo, para colocar ordem na fila. - Olha aí amizade! Uivou o Lobo bem alto. Vê se manera! Entra logo na fila. Largou maior bronca para cima de uma mosca, que zumbia enlouquecida na fila. Não bagunça o coreto, se bobear meto logo o cacete. Vou apelar para a ingnorança! Mandou logo aos empurrões um furão para o final da fila. Enfiou a mão em uma cobra que ficava se enroscando na fila, sem andar. Tudo nos conformes só então foi liberada a carroça completamente lotada para seguir viagem.

As reclamações eram muitas, havia algumas vezes, superlotação. O carroceiro não era o mesmo, desta vez veio uma besta. Por ser nova no oficio não sabia direito o trajeto. Em vez de seguir o trajeto habitual, achou que ao entrar pelo atalho, chegaria mais rápido, estava muito atrasada, mas deu com os burros n´água, foi dar em um beco sem saída. Algum espírito de porco trocou as setas que sinalizava os lugares. Assim que adentrou a comunidade, bandos de ratos saíram do porão e pularam dentro da carroça tomando tudo de todos; levaram pranchas, rádios, tudo que estava no interior da carroça. A tanajura abriu o maior berreiro, desta vez, levaram os anéis que um besouro, seu último namorado deu de presente. O veadinho que estava cochilando em um canto da carroça, foi encostado um trabuco perto do seu coração e teve de entregar tudo que iria levar para a praia. Arruinado começou também a chorar.

O líder do bando tomou as jóias de uma coroa sentada em um banco lateral, da mosca levaram os doces que trazia escondido no fundo da bolsa. De duas mariposas levaram os últimos trocados conseguidos com muito suor e sacrifício em seu trabalho noturno. São ratos escrotos, um deles teve a cara de pau de passar a mão em minhas asas. Vai ter volta, comentou entre elas, assim que eu encontrar com o amigo da onça, vou mandar o recado para Raposão. Vamos acertar as contas.

Surrupiaram a bolsa da besta, com o movimento do dia, cheia de patacas e tostões. Três ratos menores que viviam nos esgotos, tiraram o couro e a marmita de Batoré; de Coatá carregaram a mochila. Dos dois restou apenas a amizade para voltarem para casa. O maior mico que relaxava sentado ao chão, na maior lona ao lado de uma bela perua, carregou a roupa de circo e da perua uma coleção de perucas, de pinga e uma caixa de costuras. Depois que fizeram a grande limpa, se mandaram. Dom Ratón o líder da facção dos Amigos dos Amigos do Mouse da Zona Leste da Baixada, percebeu a presença da puliçada e deu no pé, avisando aos demais companheiros. Um gato e dois porcos malocados à distância davam cobertura para o grupo de ratos

Todos foram parar na delegacia para prestar queixa. Doutor Big Queixada delegado titular da Delegacia de Achados e Perdidos não queria uma muvuca em seu ambiente de trabalho, mandou logo as favas aquela turma, vão se queixar para o bispo; bateu com a porta na cara do abelhudo que acabara de entrar, que muito zangado queria prestar queixas sobre a sua mulher, dona Abelha que levou os filhos e sumiu da colméia.

Shikhani :












quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

O Time do Sapo Ficção Animal



Pelos tortuosos labirintos do Palácio, vinha o Sapo suando em bicas e abraçado com Ararajuba, um ex-sindicalista, técnico de pelada nas horas vagas e recém nomeado como conselheiro para assuntos genéricos e palpitantes do Palácio. Ar circunspeto, o Sapo não dava bola pra ninguém, ouvia ao pé do ouvido atento às confidências do velho camarada. Com a barba por fazer, de muletas por causa de uma pisada na bola no final do primeiro tempo, levou um tombo, por pouco não quebra a perna. Foi uma partida muito disputada que rolou com muita garra na Granja Ovo Torto, teve no desenrolar do jogo até um cavalo que deu uma entrada mais forte, derrubando o Sapo. Pangaré apenas recebeu cartão amarelo. O Burro soprador de apito em entrevista tumultuada concedida a Radio Papagaio considerou uma das melhores atuações que participou neste campeonato, graças também a prestimosa ajuda de Asno Louro, bandeirinha que o acompanha por mais de uma década. Houve de tudo na partida, inclusive expulsão de lado a lado. A conversa era interrompida a todo instante para reclamar da derrota e das dores que sentia na cabeça e na perna esquerda.
O adversário, o vitorioso time do Currupaco Papaco, da comunidade de Cinta Encarnada situada na periferia do palácio, famosa na criação de tamancos, desta vez entrou para vencer e pelo placar de três a um, com dois gols de Espoleta, um dos gols marcado do meio da rua o goleiro comeu um frango; o segundo após uma cobrança de falta, a bola resvalou no lateral Cabeça Chata, sobrou para Espoleta que emendou de voleio; o terceiro gol do atacante Baixola foi de bicicleta depois de seguidas pedaladas no adversário, passou a redonda para Bozó Diamante, que em seguida devolveu para ele no alto, matou no peito e com categoria mandou para o fundo da rede.
O veterano time do palácio todos considerados como peixinhos estavam inconformados pela derrota. No vestiário foram ouvidas palavras e palavrões. Pelo time do Palácio o gol foi marcado pelo zagueiro Besta Quadrada em posição duvidosa, segundo Gaguinho que proibido de entrar no estádio transmitia a peleja de cima de um telhado, apontou repetidas vezes gritando que o zagueiro estava mergulhado na banheira. Irado um jacaré de papo amarelo jogou um radinho de pilha em uma avestruz que em cima do lance gritava o nome do artilheiro Espoleta. Por pouco não arruma um quiprocó.
O publico da geral, predominante de torcedores do time da casa revoltados atiraram garrafas e bolinhas de papel no Burro que arbitrava a partida. No encerramento do jogo uma estrondosa vaia foi ouvida à distância. Um bando de ferozes policiais desconfiados que no meio da galera encontrassem diversos tucanos infiltrados na torcida, foram averiguar, farejando quem estivesse na arquibancada e na geral. Geraldinos e arquibaldos puseram a enfrentar a violência canina, com mordidas e pedradas. Ao descer para o vestiário duas hienas soltaram cobras e lagartos contra o técnico reclamaram que não tiveram oportunidade de mostrar as habilidades, se estivessem em campo, o resultado da partida seria outro.
Um macaco de macaquice sentado em um caixote levou os primeiros catiripapos assim que escorregou na banana e foi pisar logo no pé do Cotó, chefe da segurança. Saiu dali para ver o sol quadrado. Fumaça e Trovão, os lideres rebeldes das torcidas durante o jogo trocavam socos e pontapés, com a aproximação dos policiais, botaram sebo nas canelas e fugiram. Um língua de tamanduá entregou os dois, policiais armados foram ao seu encalço. Presos pela gola, acabaram sendo encanados no primeiro distrito da comunidade.
O Sapo dono da bola e do time desta vez custou a entender como um elenco de estrelas escolhido a dedo por ele, apenas composto por craques pernas de paus não conseguiu vencer o adversário, o ultimo colocado da Liga. O Sapo chamou apenas os amigos íntimos; mas sentiu muito, comentou com Maritaca, o famoso porta-voz do Palácio. Sapo Barbudo confidenciou ao amigo que foi com muito pesar barrar uma das lideranças femininas, uma das mais atuantes do movimento sindical, apesar de estar batendo um bolão. Contrariada a sereia teve de assistir de camarote, ao lado da primeira-dama, que assim que viu foi reclamar com o segurança, pois desconfiava que ela não passasse de uma penetra ou que tinha acabado de dar uma carteirada.
O que rolava no gramado do Palácio era de arrepiar. Um camundongo massagista insinuou que o velho Malaquias rondava o gramado, oferecendo uma mala preta repleta de patacas e tostões. Cotó ouviu a conversa atrás da porta e foi a seu encalço. Enquanto no vestiário do time visitante sapos cartolas reunidos coaxavam e contavam a grana arrecadada. O Sapo Gordo andava ávido por uns trocados, o clube andava na maior pindaíba, sem patrocínio, com isto teve uma brilhante idéia. O Sapo Gordo olhou para um lado e para o outro, viu que ninguém olhava, aproveitou, meteu a mão no primeiro bolo de patacas que viu, distribui a maior parte em todos os bolsos da bermuda, deixou alguns poucos trocados para o girino, um terço do terço foi repartido com dois membros do conselho consultivo do clube que são os seus auxiliares para assuntos jurídicos. Com a vitória sua cabeça e os auxiliares imediatos tiveram as geniais idéias de jerico, acharam por bem desfazer de um dos craques do time, nem que tivesse de desagradar a torcida. Aí daquele que reclamar! Esbravejou o dirigente em alto e bom som, dizendo proibir de freqüentar o clube, expulsarei qualquer um, darei um inesquecível chute no traseiro.
O time adversário quase não vencia, com esta sina, acabava no final das partidas nem eram entrevistados, a imprensa ignorava solenemente, mas desta vez o técnico Lambari ia dar uma coletiva para Bola Murcha, durante a entrevista bombástica à Cacatua, o repórter tagarela conseguiu saber que os salários do clube estavam atrasados por mais de dois meses. Sapo Gordo partiu pra cima do repórter querendo saber quem deu com a língua nos dentes, contrariado, determinou que a partir de agora nenhum jogador dará entrevista ou falará qualquer coisa, mesmo que seja apenas bobagens cabeludas.
Com o estádio do Palácio fechado, a maioria dos assessores foram embora, o publico que assistia pulou fora e o Sapo Barbudo, deprimido com a derrota foi fazer uma sauna para relaxar, mais tarde programara um pagode na casa da Vovó Bibi, uma lagartixa, uma ex-comunista que virou proprietária de casas de shows, na Vila dos Tostões ao lado de uma casinha de sapê.

Imagem do Sapo

sábado, 8 de dezembro de 2007

Hoje tem espetáculo: Vai começar a brincadeira. Ficção Animal












Dr. Coelho espalhava que fazia tudo e sempre em prol da comunidade do Rato Malhado tinha um carinho especial por estes moradores da periferia. Certo dia, Coelho pulou da cama bem cedo, beijou muito entusiasmado sua Coelhinha na testa, deu uns beliscões em uma das partes do corpo de sua companheira e saiu plantando bananeiras. Como exercício mental e matinal desviou das cercas e grades instaladas em sua toca; cumprimentou com um chute um cachorro doido que tocava viola encostado a um poste, espantou um morcego assobiando bem alto. Correu atrás de uma velha galinha, achando que ela ainda dava um bom caldo. Chutou baldes e canecas que estavam espalhados em seu caminho, pulou com maestria um despacho, posto na esquina e seguiu célere dando sonoras gargalhadas e socos no ar para alegria dos passantes.

Além da cenoura, comeu muito capim, quando voltou da corrida em volta de si, olhando apenas para o espelho. Treze minutos depois, começou a malhar no ferro e no velocípede. Ingeriu vitaminas e folhas. Alongou as pernas e as orelhas. Como hábito do oficio adquiriu uma mania de cumprimentar todo mundo, este vicio surgiu durante a campanha política que fazia ao disputar o cargo de prefeito. Outro vicio criado em sua trajetória como candidato era ao avistar qualquer filhote, tinha a qualquer custo pegar no colo e tirar fotos para a posteridade. Depois de eleito nem lembrava dos eleitores nem de tais gestos de afago. No entanto, não esquecia, aparecia sempre nos veículos de comunicação, para preservar a sua imagem de um bom prefeito; empolgado mandou imprimir várias fotos coloridas em 3x4, ao lado de um papagaio de pirata e enviou para as rádios mostrarem aos seus ouvintes. Fotos autografadas e com os dizeres: Um coelho louco pela comunidade e sempre ao lado dela.

Assim foi levando na conversa vários animais. Para obter votos fazia o possível e o impossível. Até nadar de costas em um rio cheio de jacarés e piranhas. Dr. Coelho de posse de uma prancha se exibia, fazendo estripulias, conseguiu sem muito esforço uma enxurrada de votos e foi eleito. Era comum ouvir declarações de votos: Tô com o Coelho e não abro! Coelho lá e eu aqui! Uma borboletinha, muito bonitinha, toda arrumadinha cantarolava para alegria de sua mãe e da multidão ensandecida: ”Coelhinho, se eu fosse como tu, tirava a mão do bolso e enfiava a mão no... “

Um grupo de animais endinheirados, filhotes dos proprietários das melhores e maiores estrebarias, inventaram uma brincadeira muito divertida, que consistia em acertar a cabeça oca do prefeito com ovos podres, toda vez que passeava pelo calçadão; aquele que acertava era considerado por muitos da tribo como um verdadeiro craque. Dois exímios jumentos foram os ganhadores da competição, cada um deles acertou com cinqüenta ovos a orelha e a cabeça oca do prefeito.

Assim que chegou por volta das dez horas em seu gabinete, bastante cansado, aproveitou para descansar e ficar olhando para o teto. Só então começou a enrolar o mais que pode os fios de ovos e de arames espalhados em sua mesa; jogou os diversos papéis na caçamba, montou um castelo de cartas, só então percebeu que uma bala dulcora espatifou na vidraça de seu gabinete. Gritou pelo segurança, que não respondia, estava ausente; uma zebra que passava na hora, lembrou que o doberman, funcionário exemplar entrara de férias e a secretária abelhuda estava providenciando um substituto.

Deu bom dia ao cavalo, que foi indicado para substituir o doberman. Consultou sua agenda e passou a convocar o seu secretariado para uma reunião em seu gabinete com seus auxiliares diretos e indiretos, dentre eles uma anta, dois camundongos, uma coelhinha assistente em assuntos genéricos, um papagaio, duas capivaras, cinco arapongas e um porco. Pensaram e repensaram em fazer uma homenagem aos torcedores fanáticos da comunidade.

Dois dias depois sob a calada da noite e de modo sigiloso, resolveram elaborar um minucioso plano e fazer uma surpresa aos torcedores abutres, anunciando sem mais nem menos, que doravante, esta fiel torcida de abutres, será tombada como bem cultural da Terra de Santa Cruz da Bicholândia. O esperto Coelho Cri Cri, ao lado do urubu malandro, convocou a imprensa para uma coletiva. Com os holofotes acessos, com as atenções voltadas para ele, aproveitou o momento, entrou no picadeiro, subiu em um engradado de cervejas e iniciou o seu discurso oficial embaixo de uma lona remendada: Senhoras e Senhores! Respeitável Público! Vamos dar inicio a mais um grandioso espetáculo do crescimento da comunidade. Nossa administração municipal tem muito a ver com o circo. É inegável nossa semelhança. O que seria de nós se não houvesse palhaçadas. Somos palhaços das perdidas ilusões. Pisamos neste chão de estrelas, em que a estrela maior, sem dúvida são vocês, meus queridos eleitores. A partir de hoje daremos pão e circo. Pérolas aos porcos e milhos para os galináceos. Os animais que quiserem poderão viver na corda bamba. Quero ver o circo pegar fogo, gritou um gambá prá lá de bêbado interrompendo o evento. A guarda municipal pegou o gambá pelo cangote, deu duas pancadas no lombo, uma rasteira e pôs para correr com o bicho para fora do recinto. O espetáculo mal tinha iniciado e apareceu logo um gambá para fazer graça.

* Imagem extraída deste interessante blog. Sala da Mãe Joana.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

A Galinha Dondoca e sua amiga Zuzu




A galinha Dondoca vestida sempre de branco, estava tomando conta de um dos filhos de sua amiga de longa data, que teve de sair de madrugada com urgência em busca de emprego. Estava ficando difícil para a sua amiga, ainda mais que tinha separado recentemente. Seu companheiro abandonou o lar, a merreca que conseguia, era lavando as charretes, depois levava para gastar no bar da Tia Coruja. Todo dia chegava bêbado e cada vez mais quando se aproximava o final do mês piorava em muito a vida dentro de casa, com uma briga atrás da outra.

Uma noite de lua cheia, chegou tarde, espoletado, mais bêbado do que seu amigo gambá, que acabara de deixar o velho amigo na porta de casa. Dudu mal conseguia acender a luz, tropeçou em um brinquedo e por pouco não caiu. Com raiva achou que a culpa era de Zuzu que não cuidava da casa, deixava tudo espalhado. Deu um chute na porta trancada, pegou uma peixeira que estava escondida e foi em direção da companheira e dos filhotes, foi uma confusão total, penas para todos os lados; chegaram os vizinhos acompanhados por dois pastores policiais e um sargento cavalo, que estavam de plantão nas cabines, que por sorte patrulhavam o local. Solícitos partiram correndo atrás do velho peru, conhecido biscateiro da comunidade do Rato Malhado, vizinha do Buraco do Boi de um lado e do outro com o Morro do Pinto e o Caminho da Lacraia. Passou uns dias em cana, assim que saiu, ninguém sabe, ninguém viu. Um mês depois aparece em casa todo serelepe, como se nada tivesse acontecido.

Assim deste jeito o amor foi acabando, as crias crescendo e a distância entre eles aumentando. Não se cumprimentavam mais, os pintos quando o viam chegar; assustados corriam para debaixo das caixas de papelão. De manhã para não ver Zuzu, ele cismava de olhar para o chão, ignorando a presença de sua companheira, a galinha Zuzu. A vida naquele galinheiro estava chegando ao fim, cada um para o seu lado. Um belo dia saiu para comprar cigarros e não voltou mais. Deixou os filhotes e despesas para a sua companheira, que sem tostão e sem pataca, acabou por pedir emprestado aos amigos.

A boa vida que a sua amiga Dondoca levava, não leva mais, agora como aposentada, perdeu várias regalias, mas tinha um coração sempre aberto para ajudar as amigas necessitadas. Zuzu uma galinha caipira era uma de suas melhores amigas de infância. Sua vida era de sacrifícios, cheia de pés de galinha, sem alguns dentes, sem nenhum cuidado. Houve um dia, lembra Dondoca que ao sair em busca mais uma vez de emprego, acabou conhecendo um gavião, todo emplumado, todo prosa, acabaram se juntando e foram morar na roça, lá pelos lados do Matão. Dois galos que cantavam em praça pública, avistaram Zuzu na companhia de dois pintinhos, toda elegante, desfilando e nem parecia aquela que morou na comunidade do Rato Malhado. Toda diferente com as penas douradas e sapatos bico fino prateado.

Zuzu deixara os filhotes, na casa das amigas, nunca mais voltara para saber deles ou fazer uma visita as suas amigas. Zuzu vivia uma nova vida ao lado do gavião, político militante do partido do Sapo, dono de bancas de jogo do bicho. Mandava no pedaço, contratou até uma raposa, para ser segurança de Zuzu; meses depois de viver desfrutando do bem bom, uma nova vida; em uma nebulosa manhã, não resistiu ao sofrer vários golpes na cabeça, ser depenada com truculência, seu corpo foi abandonado em um hospital abandonado distante da comunidade do Rato Malhado. Suspeitas de tamanha violência pode ser uma raposa que foi contratada para sua proteção e encontra-se foragida.


quarta-feira, 28 de novembro de 2007

O Polvo na rua. Ficção Animal






Fizeram de tudo para botar o polvo na rua. Dois assessores do Sapo chegaram a empurrar com violência o polvo, pois tiveram muita dificuldade por estar com os oito pés agarrados na janela. Se precisar dê uma mordida no dedo mindinho dele, gritou um gorila, segurança do ministro. Mas com um golpe de sorte, o polvo acabou facilitando sua saída para o meio da rua. Seu gesto foi aplaudido por Lula Lelé, ministro do governo popular do Sapo, que era um dos que do lado de fora ajudava a enganar o polvo, dizendo que estava naquele momento oferecendo uma isca e corrigindo uma injustiça, que o polvo tinha no poder, seu verdadeiro representante. Polvo você precisa ver para crer. Polvos de minha terra vocês, podem confiar! Polvo unido jamais será vencido. O polvo participará de nosso governo, não só olhando a maré e sim, nadando contra ela. O polvo não precisará ficar escondido evitando os predadores. Colocaremos burros em pé para manter a segurança pública. Nenhum bombom ou bala perdida deixarão de ser encontradas, acharemos todas e distribuiremos para a população ordeira e feliz com este governo popular. Mesmo que para isto tenhamos que subir colinas, descer ladeiras e escalar montanhas. A partir de hoje guloseimas destas espécies prometo, jamais faltará no lar de vocês. Esbravejou o ministro para em seguida aplaudir a si mesmo. Uma hiena escondida, não conseguia parar de gargalhar. Polvo de minha terra. Vejam! A hiena é feliz, acreditou neste governo. O polvo não é bobo e a hiena também.

Algum insatisfeito, se existe, deve ser um educado tucano que espalhou aos sete mares, que nossos rios, lagos, lagoas, córregos e bacias estão poluídos. É uma mentira, tanto que acabei de jogar água fora da bacia e não vi nada. Mandamos prender os tubarões e as sardinhas que provocam desestabilidade no regime alimentar, encarecendo por demais os alimentos. Nenhum governo anterior foi capaz de fazer, botar em cana os que querem aproveitar do polvo honesto e trabalhador. Cuidaremos de nossas baleias, dando amparo na velhice, arrumaremos creches para os filhotes de golfinhos. Daremos boa vida aos cavalos marinhos oferecendo notícias frescas de nosso governo. O verdadeiro jornal do polvo. Ninguém precisará entrar em polvorosa, sem saber o que acontece de mais importante neste governo popular. Traçamos uma política de emprego para as piranhas, ofereceremos para todas sem exceção, casa, comida e roupa lavada. Daremos circo ao polvo, deixaremos o picadeiro livre para qualquer manifestação. O polvo será o convidado permanente para tomar um cafezinho com o líder genial dos povos da floresta em seu programa da Rádio Pirata com retransmissão pela Rádio Papagaio durante a madrugada. O tema desenvolvido é a organização da Copa e da cozinha. Bem amigo polvo, deixaremos para outra hora, estamos certos de que fazemos o melhor para vocês. O momento é de união dos polvos, que saem fortalecidos com o governo popular. Não deixaremos o polvo na rua. Não serão excluídos de nossas decisões unilaterais, só este polvo humilde e trabalhador reconhece o verdadeiro governo popular do Sapo. Estamos de olhos abertos, resmungou um crocodilo escondido em uma mata devastada.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O Passeio do Leão Léo - Ficção Animal








O Leão Léo, fugiu do circo e da receita. Cansado desta vida, resolveu a bel prazer, dar uns bordejos pelos arredores do Palácio. Fazia calor, um sol a pino, véspera de feriado; caminhava todo contente, no entanto, parou encafifado diante de um ambulante que vendia mate. Olha o mate! Mate Leão! Mate Leão! Mate Limão! Um pouco surdo, por causa da idade, surpreendeu-se com o vendedor que gritava, esbravejava: Mate! Mate! Mate! Pensou em rugir bem alto, para mostrar com quem ele estava falando. O vendedor teria de parar de gritar Mate Leão! Afinal, ele estava diante do Rei da Selva, é do conhecimento de todos, que lá na selva, eu sou o Rei. Sou o Rei e ponto final.

Aqui, não tenho tanta certeza. Como pensar, morre apenas um burro. Léo pensou e acreditou piamente que ainda continuava a ser o Rei, pois, estava na Selva da Cidade. Uma selva de pedra, como costumava dizer para os amigos ursos. Depois, de muito matutar, filosofar, concluiu que o ambulante, não falava diretamente com ele. E seguiu a sua longa caminhada pela cidade. Animais e pessoas quando encontravam com ele, fingiam que não existia, que era um leão de pelúcia, tamanho GG.
Mais adiante, ao atravessar a quadra, conheceu dois garotos, um chamado Ramom, o outro de nome Ricardo.Escutou Ramom pedir ao avô, para comprar um mate: - Vô, compra um mate Leão ? O avô comprou, pagando dois copos. Léo ficou assustado, mas não ameaçou o garoto. Ramom, inicialmente ficou apavorado ao ver aquela fera a dois palmos do seu nariz. Léo gostou tanto dele que queria dar uma lambida, um abraço no garoto, desistiu, pensando que poderia ficar com medo. A sede de Ramom era tanta, que ao tomar o mate, matou a sede. Léo imitou aquele pinguinho de gente, pediu um natural e o outro de limão. Meu neto pode ficar tranqüilo, senta que o leão é manso. Léo deu duas rugidas, despediu do garoto e foi em frente na sua caminhada. Olhou para o céu e os monumentos, os prédios enormes e gradeados, lembrou do tempo em que ficava enjaulado; estradas esburacadas, viadutos mal conservados. Não deu muita bola para aquele lago diante do palácio, apenas olhou sua imagem no espelho d`água. Ajeitou a juba e foi em frente. Passou por um velho conhecido, leão-de-chácara e cumprimentou efusivamente. Saudações Leoninas!


Andava distraído , quando cruzou em seu caminho uma camaleoa, com uma pele um pouco enrugada, talvez por ficar muito tempo ao sol e de rabo grande. Léo fingiu que não viu, olhou de canto do olho, atravessou a quadra. Disse para si, um bonito rabo. Perto de um poste, ouviu dois homens, um em pé e o outro sentado, sem nenhuma cerimônia, falavam para cercar o leão pelos lados. Ouviu e não gostou, por pouco, não mostrou as garras para eles. Como faz o seu caminho ao caminhar, resolveu dobrar a esquerda. Passou uma grande dificuldade, acho que era a idade, bastava dar uma virada. Maior flexibilidade. O jeito foi mudar de posição, mas o suficiente para ver uma leoa com os filhotes, em uma imensa fila no posto de atendimento médico. Observou em silêncio e prosseguiu a caminhada.

Brincava ao sol com os seus irmãos, um leãozinho. Gosto muito de te ver leãozinho, um filhote de leão no meu caminho. Gosto de te ver ao sol leãozinho. Que juventude, com a sua juba em pé, saltitante, mostrando as garras. O mico leão dourado quando me viu passar, tirou o chapéu e fez grandes elogios, lembrou de minhas atuações no circo, como acrobata. Na verdade, o circo estava cheio de palhaços, muitos me faziam ficar em situação periclitante, trabalhar em dobro sem receber um vintém por isso. Os palhaços sempre tinham dinheiro e todas as facilidades. Eu que fazia a alegria da garotada, vivia na maior pindaíba, sem osso e sem pataca. Por pouco não morria a mingua. Deixei o respeitável público na platéia, que estava lotada, todos animados, gostavam do espetáculo circense, a comunidade de animais, sem muita diversão, precisava de pão e circo. Eu de rua.


Leu em uma banca de jornal, em destaque, que o Leão ia atacar os seus próximos adversários: um urubu, uma macaca, um porco, um peixe e traçar um suculento bacalhau. Antes o Leão, de peito estufado, tinha dito que papou um gavião e um jacaré. Na verdade, nunca experimentei este variado farnel. Leão mais esquisito, para mim, basta aquele meu primo lá do norte. Por falar em parentes, lembro de um bem distante, que fez bastante sucesso nas telas de cinema. Coitado, desde 1928, que pegou um trabalho extra na MGM; entrava em cena, para dar uns rugidos e nada mais, adornado por um circulo, com as palavras esquisitas: Ars Gratia Artis, que segundo me falaram, quer dizer: Arte pela Arte.


A Republica dos Bichos mudou muito, uma confusão de posição, na hora do rush, você, nem sabe se vai pela esquerda ou se encontra mais adiante uma via pela direita, ou dá uma parada pelo centro. São tantas setas, que confundem. Saí daquele circo, estava saturado de tanto palhaço chegando sem parar, todos enriquecidos com sais minerais. Cada um, mais engraçado do que o outro. Anões malabaristas circulam pelo circo, candidatos ao picadeiro. O espetáculo não podia parar.

Respeitável público! Queremos informar que todo dia, é dia de show, para aqueles que desejarem saborear uma suntuosa pizza, favor entrar na fila. Calma Excelência! Quero também o meu pedaço.


Outro dia, antes de entrar no picadeiro, falei para o amigo urso, o meu ex-domador, um careca chato, barrigudo, diga-se de passagem, falava com o Mágico de Oz, sobre o dvd Born Free, o filme narra à vida de Elsa, uma leoa órfã, trazida da selva africana. Lembrei do filme exibido nos anos 60 e da canção premiada do filme. Gostei tanto, que cheguei a ficar apaixonado por Elsa. Só em lembrar as lágrimas percorrem a minha cara. Uma linda música. Das poucas vezes que fui ao cinema, outro filme que assisti, com dificuldades e dobrando a língua para falar que era “The Lion King” do leão Mufasa e do filhote Simba. Cheguei a dançar ao tocar a trilha, enquanto assistia ao filme. No escurinho do cinema, eu paquerava uma tigresa que comia pipocas, estava em companhia de um senhor leopardo, tava na cara que era um turista. A tigresa tinha um corpinho de uma gata selvagem, unhas negras e íris cor de mel.

Estava ficando tarde, tinha de retornar para casa, antes de Léa, virar uma onça. Andei muito pela cidade, fiquei com alguns calos, escutei boatos, barulhos e até tiros eu ouvi. Bati em retirada, muito apressado. Até com os amigos da onça, cheguei a conversar, bebericamos garrafas de jurubeba no boteco da Tia Coruja. A cidade está um caos, um circo cheio de palhaços, que cada vez, aumenta mais. As luzes das cidades continuam acesas. Vejo, ao passar diante de um prédio, um embrulho no lixo embrulhado por um jornal da semana passada, com a seguinte manchete: Está desaparecido, destino ignorado, quem souber o paradeiro, favor avisar:

Bode Ludovico, figura proeminente da Republica dos Bichos, sumiu, ninguém sabe, ninguém viu. Logo ele, aquele Bode, que vivia no maior bode, com todas as mordomias. Líder do partido dos animais trabalhadores Estranho, muito estranho. Coloquei a minha juba de molho, a coisa aqui tá preta.Vou voltar para a Floresta.



Neste texto, foram inseridas passagens de duas músicas de Caetano Veloso: Leãozinho e Tigresa.